Por que Stranger Things se tornou a série do momento

Você, provavelmente, assim como eu e um monte de gente, não deve ter criado lá muitas expectativas em torno da série original que o Netflix lançou em julho, Stranger Things. Mas, provando que a melhor propaganda é feita pelo boca a boca, em poucos dias a série começou a bombar em todas as redes sociais e, rapidamente, se transformou no hit das férias. Por quê?

A série é curtinha ( tem apenas 8 episódios), em que a trama é bem amarrada e vai ficando stranger7progressivamente tensa. Em 1983, na cidadezinha de Hawkins, Indiana, aparentemente pacata, o menino Will Byers (Noah Schnapp) some após sair da casa do amigo Mike ( Finn Wolfhard), onde eles mais Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) jogavam RPG. Will desaparece e sua mãe, Joyce (Winona Ryder), fica desesperada. O sumiço do menino acarreta estranhos fenômenos sobrenaturais, e outro mistério é acrescentado à história: a garota Eleven (Millie Bobby Brown), que tem superpoderes e é encontrada pelos amigos de Will enquanto procuram por ele.

Stranger Things consegue nos conquistar por um conjunto de elementos muito interessante:

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  1. Os Duffer Brothers e sua reverência aos anos 80 ( E o sentimento de estar vendo uma versão da Sessão da Tarde no Netflix) : eles conseguiram reunir tudo de fantástico que houve no cinema daquela época; quem cresceu entre os anos 80 e 90, como eu, teve um choque maravilhoso ao identificar tantas referência ali. Spielberg e seus clássicos ( como ET, Goonies e Potergeist), o filme Conta Comigo, baseado numa história de Stephen King ( e, aliás, Stranger Things poderia perfeitamente ter saído da cabeça do stranger6escritor – e mais alguém também achou que a Eleven tem um quê de Carrie, a Estranha?); o terror e o sobrenatural que aparecem em diferentes graus de intensidade têm muito dos filmes da franquia A Hora do Pesadelo ( aquela do Freddie Krueger) e de Alien, o oitavo Passageiro, sem falar que o  núcleo adolescente é claramente uma homenagem aos filmes teens daquela década comandados por John Hughes ( Clube dos Cinco), por exemplo.  Ah, bons tempos da Sessão da Tarde! Já me sinto velha ao escrever isso ( rsrssrsr), mas a verdade é que o pessoal mais velho foi fisgado por Stranger Things também pelo inconsciente, pela memória afetiva. A garotada protagonista parece muito com os meninos  dos Goonies, por exemplo, e são tantas as referências que a gente recupera aquele sentimento de infância, mata saudade de uma época “analógica”.                                                                                                    stranger10
  2. Winona Ryder: ela é um ícone vivo dos anos 80/90, tendo sido uma das jovens estrelas mais prestigiadas e requisitadas. Ainda bem novinha, Winona fez dois filmes clássicos: Os Fantasmas se divertem e Edward, mãos de tesoura. Tudo bem que no início dos anos 2000 ela tenha dado uma derrapada, mas agora ela voltou com tudo!
  3. Clichês adolescentes:  Os adolescentes pareciam meio inseguros nos 3 primeiros capítulos, mas uma virada no enredo faz com que Nancy ( Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) tomem atitudes drásticas e se unam. Ela é uma típica menina certinha, e ele, um “esquisito”, mas a química entre eles é gritante. Em relação aos pré-adolescentes, eles são os donos da série, né? Há também o bonitão boçal, a amiga da mocinha que só está lá pra dar força, a turma dos populares…
  4. Crianças maravilhosas e talentosas: dá vontade de colocá-los num potinho ❤  Principalmente Millie Bobbie Brown, que  é uma baita atriz: com apenas 12 anos e quase sem falar, ela vive Eleven, a menina misteriosa e cheia de poderes caçada pelo governo e abrigada por Mike Wheeler, vivido por Finn Wolfhard. Ele dosa bem a doçura do personagem que está vivendo o stranger things 8primeiro amor com a investigação com o sumiço de Will; ele é o líder da turma, e é tão bonitinho ver o sentimento que vai desenvolvendo pela menina… quem não chorou junto com ele no “goodbye, Mike”? #Mikeven #ShipoMSM Já Dustin parece muito com dois personagens hilários de Os Goonies: Bocão e Gordo. Vivido pelo fofíssimo além do conta Gaten Matarazzo, quem não caiu de amores por este banguela? Sem falar que os melhores quotes da série são deles. strager9
  5. Trilha sonora matadora:  juro que nunca mais vou escutar Should I stay or should I go do The Clash da mesma forma! A série também traz clássicos como Africa, do  Toto, uma versão da boweniana Heroes na voz de Peter Gabriel, Waiting for a Girl Like You, do Foreigner, por exemplo, fora aqueles sons etéreos criados com teclados bem típicos dos 80’s ( ah, o Netflix liberou a trilha da série no Spotfy). Abaixo, um recadinho bem ao estilo “Stranger things” para vocês:stranger11

Resenha de O Iluminado – Especial Mês do Terror – Ano 2!

Olá!

Capa O Iluminado_SUMA_Nova.inddMais um especial Mês do Terror chegando e a abertura vai ser em grande estilo! Quem melhor para tacar o pé na porta e decretar as leituras mais sobrenaturais e de botar medo que Stephen King?

Há algum tempo estava planejando ler algo do autor e me decidi por O Iluminado. Já tinha visto o filme homônimo de Stanley Kubrick e confesso que ele me fascinava ao mesmo tempo que assustava. Comprei o livro e aguardei o mês de outubro para que a resenha dele saísse no Especial, e devo dizer: que livro INCRÍVEL! Como eu nunca tinha lido o King antes, meu Deus?!  O Iluminado3

Já vou logo avisando: o livro é bem diferente do filme. Claro que, por ser uma obra superconhecida, cult ( e por ser impossível imaginar outro Jack Torrance mais medonho que o feito por Jack Nicholson), as imagens dele acabam interferindo na leitura, na hora de imaginar os detalhes dos locais e dos personagens, mas a verdade é que ambas as formas, livro e filme, contam a mesma história, só que de forma distinta.

No livro, vemos Jack Torrance sendo contratado para tornar-se o zelador do hotel Overlook durante o inverno. O emprego exige que ele cuide da propriedade na época mais inóspita, em que a neve cai ininterruptamente e o hotel fecha. Jack é um homem cheio de problemas e de personalidade complexa, um tanto quanto perturbada pelos problemas com alcoolismo, que o fizeram perder a cabeça várias vezes e pôr em xeque a estabilidade financeira e emocional da O Iluminado4sua família.

Ele é pai do iluminado do título, o pequeno Danny, de 5 anos. O menino tem um poder raríssimo, em que sua iluminação o permite ler pensamentos, sentir coisas de forma paranormal e até de adivinhar eventos futuros. Ele possui uma espécie de amigo imaginário, Tony, que o alerta através de visões sinistras que eles não devem ir para o hotel, que lá coisas ruins irão acontecer, inclusive o ataque de algo denominado REDRUM.

O Iluminado5Mas, como Jack está lutando contra o alcoolismo, tentando salvar seu casamento e ainda acabar uma peça teatral que poderá recolocá-lo no caminho da literatura (ele tem pretensões de ser um escritor reconhecido), os três, Jack, Danny e a mãe do menino e esposa de Jack, Wendy, partem rumo às montanhas mais íngremes do Colorado, onde ficaram por meses trancados no Overlook desafiados pela fúria invernal.

Lá chegando, visitando e conhecendo cada trecho do hotel, eles são recepcionados por Dick Hallorann, o cozinheiro, que sente de cara toda a força da iluminação do garotinho, pois ele também é um iluminado, mas em menor grau. Sentindo que algo pode vir a acontecer com Danny e seus pais devido à aura que envolve o hotel, Dick se oferece para ajudar quando eles precisarem.

O Overlook possui segredos, coisas que ainda estão impregnadas em suas paredes, mortes, O Iluminado6traições, orgias, coisas tais que nunca morreram e que parecem desejar a força de Danny para tomarem mais corpo ainda. Jack começa a ler um álbum que acha no porão e deixa-se ficar fascinado pela história do hotel. Personalidades que lá passaram desde o início do século XX ( a trama se passa no fim dos anos 70); os crimes de gângsters, as festas de arromba como a que houve no fim da Segunda Guerra Mundial. Esta festa, um baile de máscaras em que King faz uma intertextualidade excelente com o conto A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Alan Poe, persegue os personagens do meio para o fim do livro. Há ainda outros eventos horripilantes, que amedrontam o pequeno Danny ( e você, leitor), como o mistério do quarto 217 ( que no filme é 237) e deixam o pai dele cada vez mais hipnotizado. O hotel deseja o menino e Jack vai enlouquecendo pouco a pouco, assim como o antigo zelador que matou a mulher, as filhas ( no filme, são as meninas vestidas de azul que surgem do nada apavorando Danny) e a si mesmo.

Stephen King vai construindo o enredo com maestria; a tensão cresce e você simplesmente não consegue largar o livro. Muitas vezes ele é prolixo e existem passagens que eu consideraria até dispensáveis, mas o resultado final é ótimo. O Iluminado é um dos melhores do seu gênero por ser assustador e fascinante em doses iguais. Aliás, você sabia que o escritor não gosta do filme de Kubrick? O diretor tomou várias liberdades em relação à obra, modificando o final, por exemplo, mas ambos são grandes obras sobre o menino iluminado, seu pai que se torna paulatinamente um psicótico e um hotel dominado por forças do mal.

  • Insatisfeito com o filme, em 1997 King participou de uma produção que adaptou O Iluminado em forma de série, mas eu, pessoalmente, achei bem ruinzinha rsrs.
  • Doutor Sono, lançado ano passado, é a história de Danny adulto tendo que ajudar uma garota iluminada; já quero ler demais!

Especial Mês do Terror: 3 contos de Edgar Allan Poe

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Oi! Hoje é dia da Bruxas, e nada melhor que encerrar o nosso especial do mês do terror falando de alguns contos conhecidos do mestre deste estilo na literatura, Edgar Allan Poe.

Eu era louca para ler Poe, mas nunca conseguia. Porém, como o Especial do Mês do Terror também era um desafio para mim, o propósito finalmente ficou mais fácil de ser atingido, e vou dizer: não vou parar nestes que conheci! Vou comprar livros dele, com certeza!

Então, vamos lá:

Willian Wilson

Neste conto, conhecemos o homem que adota o nome de Willian Wilson, que vai logo nos dizendo que isso foi preciso Willian WIlsonpelo fato do seu nome verdadeiro já ser objeto de muita vergonha para a sua família.

Ele é quase como a síntese humana dos vícios e da maldade, apresentando tal comportamento desde a infância. Na escola, onde começou a desenvolver esta personalidade, a única coisa que consegue estancar um pouco seus maus hábitos é a presença de um outro garoto, muito parecido com ele, com seu mesmo nome e data de nascimento. Isto é perturbador, e, ao longo da vida, a presença deste “duplo”, quando Wilson menos espera, reaparece.

Seja acusando-o e revelando os seus crimes para os outros, seja dando-lhe conselhos, é estranha a espécie de perseguição que o “duplo bom” de Willian Wilson faz. Até que, um dia, em um baile em que desejava “aprontar” e vê seus planos em perigo ao ver o outro, o Wilson mau se zanga e chama o outro para um combate. Dominado pela fúria ele o mata a golpes sucessivos de espada, e o espantoso fica guardado para o final, quando o agonizante Wilson “bom” declara:

“- Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo.”

Na minha concepção, este conto mostra que, na verdade, os dois eram a mesma pessoa, mas que um tinha a essência boa e o outro, a ruim. Como não possuía a bondade em si, era preciso que o Wilson bom acompanhasse o ruim, sendo que este, ao eliminá-lo, perdera as chances de se salvar para sempre.

a máscara da morte rubraA Máscara da Morte Rubra

Este conto, que em algumas outras versões em português contém variações para a cor da máscara (pode ser chamada “da morte vermelha” ou “escarlate”) narra como um tipo devastador de morte que se espalhou em um reino.

“Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.”

O príncipe deste lugar resolve, então, mudar-se para um castelo altamente fortificado e distante, levando consigo apenas pessoas mais íntimas de sua corte. Durante meses, ele crê que conseguira driblar a morte que assola seu país, vivendo afugentado ali.

Um dia, ele resolve dar um baile suntuoso. De acordo com as suas indicações, a decoração e as vestimentas dos convivas são excêntricas e luxuosas, e cada ambiente recebe uma cor com iluminação especial. A única coisa que os perturbava eram as batidas de um tenebroso relógio. Quando este marca meia-noite e as batidas se sobressaem a todo som, uma figura sinistra aparece, parecendo encarnar a própria Morte…

Dos contos do Poe que li, este foi o que mais me hipnotizou. A sequência final é magistral!

Por último, li outro que é também um clássico do escritor:

O Barril do Amontillado

o barril do amontillado

O cerne deste conto é a vingança. Um amigo que decide vingar-se de outro por conta de injúrias e que vai escolher um tipo bem tramado e maquiavélico de “justiça”. Era curiosa para ler este conto porque já o tinha visto sendo citado como uma das obras da literatura que melhor abordam este tema ( e, ao que me consta, parece ter inspirado “Venha ver o pôr-do-sol”, da Lígia Fagundes Teles, que inclusive eu resenhei no post passado).

O protagonista atrai Fortunato, o alvo da sua ira vingativa, para uma espécie de adega que possuía em seu palácio, com o intuito de fazê-lo provar uma bebida. Fortunato já estava embriagado, o que facilita ainda mais o plano.

“Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo. Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma sequência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.
O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos. – E o barril? – perguntou. – Está mais adiante – respondi.”

Pode-se dizer que os requintes sórdidos do protagonista para atrair sua vítima para a presa são o ponto alto da história. Ele diz várias vezes durante o percurso que, se Fortunato se quisesse, eles poderiam voltar. O outro, bêbado e orgulhoso, nem percebia que eles iam cada vez mais fundo… e que, daquele lugar, ele jamais sairia. Um conto perfeito!

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“Edgar Allan Poe (1809-1849), poeta, crítico e contista, nasceu em Boston, representando uma tendência à parte do movimento geral do Romantismo nos EUA. A tendência dos escritores pelo fantástico, pelo misterioso, pelo macabro. Cultivando na sua obra esses temas, Poe personifica uma das tendências mais marcantes do movimento romântico transplantado da Inglaterra para a América.[…] Edgar Allan Poe é considerado o “criador” do conto policial, mas seu principal mérito está na habilidade com que montava suas histórias. Ele as planejava como um bom arquiteto planeja um edifício, envolvendo o leitor de tal maneira que o conduz “hipnoticamente” ao desfecho da história. Isso revela o dualismo de sua arte e personalidade: de um lado “visionário e idealista”, mergulhado em poemas de tristeza e narrativas de horror e policiais. Um homem de vida conturbada, dominado pelo vício do álcool e excesso de ópio. Por outro lado, era um “artesão exigente”, um escritor que orgulhava de sua técnica e do racionalismo com que criava suas histórias. É essa dualidade que o projeta como um dos mestres da literatura mundial.” FONTE: http://www.infoescola.com/escritores/edgar-allan-poe/

Especial Mês do Terror: Contos Brasileiros Sobrenaturais

Oi, gente!

Hoje é o dia em que o Livro Arbítrio chega ao seu penúltimo post sobre o mês do terror falando de contos que são brazucas com essa temática. Eu tive ideia de falar sobre cinco contos, mas acabei aumentando a conta rsrsrs… então, vamos lá!

  1. Venha ver o pôr-do-sol ( Lígia Fagundes Teles)

venha ver o pôr do sol

Este é meu conto preferido da Lígia,  e um dos mais conhecidos na nossa literatura no quesito “dar frio na barriga da gente”. Com um ar meio Edgar Alan Poe, conta como um ex-casal se reencontra venha ver o pôr do sol 2em um cemitério antigo para reparar antigas diferenças. Sem nem perceber, o leitor e a moça a quem o rapaz convida são atraídos para uma armadilha estranha, cruel, maquiavélica…

 – Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.

  1. Dizem que os cães veem coisas ( Moreira Campos) dizem que  os caes 2

Este grande escritor cearense é um dos meus contistas favoritos, disparadamente. Com seu estilo enxuto e sóbrio, nesse Dizem que os caesconto temos a presença sobrenatural da Morte     ( isso mesmo, da própria) que surge em um cenário aparentemente incomum para tal ocorrência: um churrasco à beira da piscina em um dia de sol.

Ela chegou diáfana, transparente, no vestido branco que lhe descia até os pés calçados pelas ricas sandálias de pluma. Ninguém lhe ouviu os passos. Sentou-se à beira da grande piscina, cruzando as pernas longas. Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara. Moldada em gesso? Apenas uma presença, porque pousou como uma sombra. Mas por um fragmento de tempo, um quase nada, reinou entre todos um silêncio largo, que se estendeu pelo vasto terreno murado da mansão ensombrada pelas árvores, dominou a enorme piscina e emudeceu as próprias crianças pajeadas pelas babás de aventais bordados, e vejam que as crianças são indóceis. Um presságio.

  1. Passeio Noturno I e II (Rubem Fonseca)

 64-contos-de-rubem-fonsecaDois contos que têm o mesmo protagonista e que trazem a marca indiscutível do mestre Rubem Fonseca, eles dão medo não pela ocorrência de algo sobrenatural, mas pelos atos psicopatas de um cara aparentemente “acima de qualquer suspeita”.

Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia.

 
 4.Três Contos Fantásticos de Machado de  Assis  três contos fantásticos machado de assis

 – Sem Olhos

Em meio a uma reunião descontraída entre amigos, após o jantar, a conversa recaiu sobre o tema “fantasmas”. Havia quem acreditasse, havia quem não; para provar o ponto de vista de que eles existem sim, o desembargador Cruz conta para os amigos um fato que lhe ocorrera quando ainda era jovem, em que uma fantasma o fizera duvidar do que era delírio e o que era realidade.

 mulher-fantasma_conto machado“- O que eu vi foi há muitos anos, disse ele; ainda assim conservo a memória fresca do que me aconteceu. Não sei se poderia ir até o fim; e desde já estou certo de que vou passar uma triste noite…”

 

-A Chinela Turca

Neste conto, um jovem está ansioso para ir a um baile cortejar a moça por quem está apaixonado, mas se vê impedido graças à visita inoportuna de um senhor conhecido. Para não fazer desfeita, porque o tal homem era muito amigo da família da moça, o rapaz aceita ler a peça teatral que este lhe trouxera para avaliar. O que era para ser rápido acaba em uma situação enfadonha, e mais que isso, numa jogada genial de Machado misturando uma história dentro da outra, fazendo até nós, leitores, confundirmos, assim como o protagonista, o que foi real e o que foi fantasia.

Ouvindo aquela alusão à dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival suplantado. Ou a alusão seria casual e estranha à aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.

– Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a polícia…

– Nós não somos da polícia, interrompeu friamente o homem magro.”

 – Um Esqueleto

contos de machado sobrenaturais

Um outro conto machadiano que se baseia muito no jogo entre o real e o que pode ter sido fantasiado pelos personagens, traz a narração de um rapaz para um grupo de amigos em uma noite chuvosa. Ele relata um caso sombrio que vivera na sua cidade. Um médico, amigo seu, tinha o mórbido hábito de conviver com o esqueleto de sua primeira mulher, a quem matara por ciúmes. O final é um pouco desconcertante, e eu não vou adiantar!

Eu não dizia nada, e o doutor continuou a falar assim durante vinte minutos. A tarde caíra de todo; e a ideia da noite e do esqueleto que ali estava a poucos passos de nós, e mais ainda as maneiras singulares que nesse dia, mais do que nos outros, mostrava o meu bom mestre, tudo isso me levou a  despedir-me dele e a retirar-me para casa.”

Gostaram das dicas? No próximo post que fechará o especial, nós teremos a análise de três contos do mestre do gênero terror, Edgar Alan Poe, não percam!

Especial Mês do Terror – “A outra volta do parafuso”

a outra volta do parafuso

Um livro que conseguiu com que eu prendesse o fôlego: “A outra volta do parafuso”, de Henry James é um clássico arrebatador, atemporal, do tipo que sempre vai atrair quem é interessado por boa literatura e ficção de mistério.

Publicado em 1898, eu digo que é uma história assombrosa em todos os sentidos ( e, ao que consta, inspirou “livremente” o filme Os Outros). a outra volta do parafuso governanta

Em uma certa reunião de amigos ao redor de uma lareira, na época do Natal, estão contando histórias de terror. O interessante é que há uma troca tripla de narradores ao longo do enredo: primeiro, há um que inicia a trama, falando-nos do ambiente e nos apresentando a um certo Douglas. A partir de então, Douglas é quem nos conta que possui cartas que foram há muito tempo entregues a ele pela ex-governanta de sua irmã, que transmitem uma terrível história em que duas crianças com as quais ela trabalhou foram fortemente atentadas por fantasmas.

A partir de então, a narrativa é tomada pela voz da governanta, da qual não sabemos o nome. Ela chegou ainda jovem para trabalhar em Bly, uma grande propriedade nos arredores de Londres. Ela fora contratada pelo tio da crianças, um “dândi”, responsável pelos sobrinhos desde a morte dos pais delas. Totalmente desinteressado nelas, ele pede a ela que nem perca seu tempo avisando-o sobre eles.

a outra volta do parafuso meninoEla é uma professora, filha de um pároco, inexperiente e impressionada com tudo, principalmente com as crianças, que acha incríveis, lindas, adoráveis, assim que chega à Bly.

Lá, ela logo faz amizade com uma empregada antiga, a sra. Grose. As crianças são Miles, um menino que volta da escola, expulso, e Flora. Ambos são belos, angelicais, espertos, perfeitos.

Como ficamos sabendo das coisas apenas pela visão da governanta, a ambiguidade das situações, falas e impressões ficam muito a cargo dela. A uma certa altura, você se pergunta: isso realmente aconteceu, ou ela imaginou? E, se não aconteceu da forma como ela descreve, então não existe explicação!

Ela começa a perceber que estranhos fenômenos estão acontecendo na propriedade. Fatos inexplicáveis e que passam, na sua concepção, a exercer influência sobre as crianças, que, de anjinhos, vão se tornando ao seus olhos seres perversos e maquiavélicos, fazendo coisas estranhas à sua idade insuflados pelos fantasmas de dois ex-empregados de Bly que tinham morrido: Quint e a srta Jessel. Segundo a sra. Grose, eles pareciam ser amantes, e as crianças eram extremamente ligadas a eles, tanto que, à medida que a leitura avança, não resta dúvidas à governanta de que eles vieram do além atentar Flora e Miles e levá-los juntos pro inferno. a outra volta do parafuso menina

Por mais que você tenha a consciência de que a narradora é parcial, não há como negar que têm passagens que são mesmo amedrontadoras. Ela chega a dizer que vê os fantasmas, sem falar que ela própria encosta as crianças na parede que chega também a dar medo.

Enfim, Henry James sugestiona, joga, e faz um thriller psicológico que tem um final surpreendente e chocante. Como já disse, eu não tenho lá muita bagagem nesse tipo de literatura, e também sou meio medrosa  (kkkkk), mas acho que no quesito suspense e sobrenatural, “A Outra Volta do Parafuso” é nota 10. Detalhe: eu tomei um susto tão grande quando acabei de ler, que tive que voltar e reler as três últimas páginas! #ValeAPena!

“Ela está aqui ?”, Miles perguntou, ofegante, seguindo com os olhos na direção das minhas palavras. Então, quando ao ouvir aquela estranha palavra “ela” eu, como um eco, exclamei-a também, “Senhorita Jessel, senhorita Jessel!” ele, com fúria súbita, respondeu.

Agarrei, estupefata, aquela suposição – uma repetição do que havíamos feito com Flora, mas isso fez-me apenas querer mostrar-lhes que a coisa era melhor ainda. “Não é a senhorita Jessel! Mas está na janela- bem à nossa frente. Está ali- aquele horror covarde, ali pela última vez!”

a outra volta do parafuso visão srta jessel