Especial Mês do Terror: 3 contos de Edgar Allan Poe

poe

Oi! Hoje é dia da Bruxas, e nada melhor que encerrar o nosso especial do mês do terror falando de alguns contos conhecidos do mestre deste estilo na literatura, Edgar Allan Poe.

Eu era louca para ler Poe, mas nunca conseguia. Porém, como o Especial do Mês do Terror também era um desafio para mim, o propósito finalmente ficou mais fácil de ser atingido, e vou dizer: não vou parar nestes que conheci! Vou comprar livros dele, com certeza!

Então, vamos lá:

Willian Wilson

Neste conto, conhecemos o homem que adota o nome de Willian Wilson, que vai logo nos dizendo que isso foi preciso Willian WIlsonpelo fato do seu nome verdadeiro já ser objeto de muita vergonha para a sua família.

Ele é quase como a síntese humana dos vícios e da maldade, apresentando tal comportamento desde a infância. Na escola, onde começou a desenvolver esta personalidade, a única coisa que consegue estancar um pouco seus maus hábitos é a presença de um outro garoto, muito parecido com ele, com seu mesmo nome e data de nascimento. Isto é perturbador, e, ao longo da vida, a presença deste “duplo”, quando Wilson menos espera, reaparece.

Seja acusando-o e revelando os seus crimes para os outros, seja dando-lhe conselhos, é estranha a espécie de perseguição que o “duplo bom” de Willian Wilson faz. Até que, um dia, em um baile em que desejava “aprontar” e vê seus planos em perigo ao ver o outro, o Wilson mau se zanga e chama o outro para um combate. Dominado pela fúria ele o mata a golpes sucessivos de espada, e o espantoso fica guardado para o final, quando o agonizante Wilson “bom” declara:

“- Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo.”

Na minha concepção, este conto mostra que, na verdade, os dois eram a mesma pessoa, mas que um tinha a essência boa e o outro, a ruim. Como não possuía a bondade em si, era preciso que o Wilson bom acompanhasse o ruim, sendo que este, ao eliminá-lo, perdera as chances de se salvar para sempre.

a máscara da morte rubraA Máscara da Morte Rubra

Este conto, que em algumas outras versões em português contém variações para a cor da máscara (pode ser chamada “da morte vermelha” ou “escarlate”) narra como um tipo devastador de morte que se espalhou em um reino.

“Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.”

O príncipe deste lugar resolve, então, mudar-se para um castelo altamente fortificado e distante, levando consigo apenas pessoas mais íntimas de sua corte. Durante meses, ele crê que conseguira driblar a morte que assola seu país, vivendo afugentado ali.

Um dia, ele resolve dar um baile suntuoso. De acordo com as suas indicações, a decoração e as vestimentas dos convivas são excêntricas e luxuosas, e cada ambiente recebe uma cor com iluminação especial. A única coisa que os perturbava eram as batidas de um tenebroso relógio. Quando este marca meia-noite e as batidas se sobressaem a todo som, uma figura sinistra aparece, parecendo encarnar a própria Morte…

Dos contos do Poe que li, este foi o que mais me hipnotizou. A sequência final é magistral!

Por último, li outro que é também um clássico do escritor:

O Barril do Amontillado

o barril do amontillado

O cerne deste conto é a vingança. Um amigo que decide vingar-se de outro por conta de injúrias e que vai escolher um tipo bem tramado e maquiavélico de “justiça”. Era curiosa para ler este conto porque já o tinha visto sendo citado como uma das obras da literatura que melhor abordam este tema ( e, ao que me consta, parece ter inspirado “Venha ver o pôr-do-sol”, da Lígia Fagundes Teles, que inclusive eu resenhei no post passado).

O protagonista atrai Fortunato, o alvo da sua ira vingativa, para uma espécie de adega que possuía em seu palácio, com o intuito de fazê-lo provar uma bebida. Fortunato já estava embriagado, o que facilita ainda mais o plano.

“Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo. Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma sequência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.
O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos. – E o barril? – perguntou. – Está mais adiante – respondi.”

Pode-se dizer que os requintes sórdidos do protagonista para atrair sua vítima para a presa são o ponto alto da história. Ele diz várias vezes durante o percurso que, se Fortunato se quisesse, eles poderiam voltar. O outro, bêbado e orgulhoso, nem percebia que eles iam cada vez mais fundo… e que, daquele lugar, ele jamais sairia. Um conto perfeito!

edgar_allan_poe_
“Edgar Allan Poe (1809-1849), poeta, crítico e contista, nasceu em Boston, representando uma tendência à parte do movimento geral do Romantismo nos EUA. A tendência dos escritores pelo fantástico, pelo misterioso, pelo macabro. Cultivando na sua obra esses temas, Poe personifica uma das tendências mais marcantes do movimento romântico transplantado da Inglaterra para a América.[…] Edgar Allan Poe é considerado o “criador” do conto policial, mas seu principal mérito está na habilidade com que montava suas histórias. Ele as planejava como um bom arquiteto planeja um edifício, envolvendo o leitor de tal maneira que o conduz “hipnoticamente” ao desfecho da história. Isso revela o dualismo de sua arte e personalidade: de um lado “visionário e idealista”, mergulhado em poemas de tristeza e narrativas de horror e policiais. Um homem de vida conturbada, dominado pelo vício do álcool e excesso de ópio. Por outro lado, era um “artesão exigente”, um escritor que orgulhava de sua técnica e do racionalismo com que criava suas histórias. É essa dualidade que o projeta como um dos mestres da literatura mundial.” FONTE: http://www.infoescola.com/escritores/edgar-allan-poe/
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Especial Mês do Terror – “A outra volta do parafuso”

a outra volta do parafuso

Um livro que conseguiu com que eu prendesse o fôlego: “A outra volta do parafuso”, de Henry James é um clássico arrebatador, atemporal, do tipo que sempre vai atrair quem é interessado por boa literatura e ficção de mistério.

Publicado em 1898, eu digo que é uma história assombrosa em todos os sentidos ( e, ao que consta, inspirou “livremente” o filme Os Outros). a outra volta do parafuso governanta

Em uma certa reunião de amigos ao redor de uma lareira, na época do Natal, estão contando histórias de terror. O interessante é que há uma troca tripla de narradores ao longo do enredo: primeiro, há um que inicia a trama, falando-nos do ambiente e nos apresentando a um certo Douglas. A partir de então, Douglas é quem nos conta que possui cartas que foram há muito tempo entregues a ele pela ex-governanta de sua irmã, que transmitem uma terrível história em que duas crianças com as quais ela trabalhou foram fortemente atentadas por fantasmas.

A partir de então, a narrativa é tomada pela voz da governanta, da qual não sabemos o nome. Ela chegou ainda jovem para trabalhar em Bly, uma grande propriedade nos arredores de Londres. Ela fora contratada pelo tio da crianças, um “dândi”, responsável pelos sobrinhos desde a morte dos pais delas. Totalmente desinteressado nelas, ele pede a ela que nem perca seu tempo avisando-o sobre eles.

a outra volta do parafuso meninoEla é uma professora, filha de um pároco, inexperiente e impressionada com tudo, principalmente com as crianças, que acha incríveis, lindas, adoráveis, assim que chega à Bly.

Lá, ela logo faz amizade com uma empregada antiga, a sra. Grose. As crianças são Miles, um menino que volta da escola, expulso, e Flora. Ambos são belos, angelicais, espertos, perfeitos.

Como ficamos sabendo das coisas apenas pela visão da governanta, a ambiguidade das situações, falas e impressões ficam muito a cargo dela. A uma certa altura, você se pergunta: isso realmente aconteceu, ou ela imaginou? E, se não aconteceu da forma como ela descreve, então não existe explicação!

Ela começa a perceber que estranhos fenômenos estão acontecendo na propriedade. Fatos inexplicáveis e que passam, na sua concepção, a exercer influência sobre as crianças, que, de anjinhos, vão se tornando ao seus olhos seres perversos e maquiavélicos, fazendo coisas estranhas à sua idade insuflados pelos fantasmas de dois ex-empregados de Bly que tinham morrido: Quint e a srta Jessel. Segundo a sra. Grose, eles pareciam ser amantes, e as crianças eram extremamente ligadas a eles, tanto que, à medida que a leitura avança, não resta dúvidas à governanta de que eles vieram do além atentar Flora e Miles e levá-los juntos pro inferno. a outra volta do parafuso menina

Por mais que você tenha a consciência de que a narradora é parcial, não há como negar que têm passagens que são mesmo amedrontadoras. Ela chega a dizer que vê os fantasmas, sem falar que ela própria encosta as crianças na parede que chega também a dar medo.

Enfim, Henry James sugestiona, joga, e faz um thriller psicológico que tem um final surpreendente e chocante. Como já disse, eu não tenho lá muita bagagem nesse tipo de literatura, e também sou meio medrosa  (kkkkk), mas acho que no quesito suspense e sobrenatural, “A Outra Volta do Parafuso” é nota 10. Detalhe: eu tomei um susto tão grande quando acabei de ler, que tive que voltar e reler as três últimas páginas! #ValeAPena!

“Ela está aqui ?”, Miles perguntou, ofegante, seguindo com os olhos na direção das minhas palavras. Então, quando ao ouvir aquela estranha palavra “ela” eu, como um eco, exclamei-a também, “Senhorita Jessel, senhorita Jessel!” ele, com fúria súbita, respondeu.

Agarrei, estupefata, aquela suposição – uma repetição do que havíamos feito com Flora, mas isso fez-me apenas querer mostrar-lhes que a coisa era melhor ainda. “Não é a senhorita Jessel! Mas está na janela- bem à nossa frente. Está ali- aquele horror covarde, ali pela última vez!”

a outra volta do parafuso visão srta jessel