Resenha de “Feliz Ano Novo”

feliz ano novo

Um autor que sempre me lembra da minha adolescência, ali por volta dos 16, 18 anos, é Rubem Fonseca. O engraçado é que os textos dele não têm nada voltado para essa idade, ao contrário; há crueza, dor, “a vida como ela é” ( com todos os palavrões incluídos) e uma reflexão meio desgraçada da vida.

Com certeza, eu lia e algo me fascinava; além destas características listadas acima, há o que eu mais gosto na estilística do Fonseca: ele não faz concessões. Se ele que usar determinado termo, ele usa e pronto, não floreia. E, mesmo que seus personagens e histórias sejam descritos com detalhes jornalísticos, há ainda espaço para a loucura, para o surreal e para o assombro diante da natureza humana.

Então, estava visitando uma biblioteca que sempre frequento e decidi ler Feliz ano novo, um livro deste cara genial. Repleto de contos que são uma sequência perfeita de cenas urbanas, perplexidade diante da vida e personagens bizarros, este livro foi censurado pela Ditadura Militar em 1976, porque denunciava também vários problemas de cunho social.

O conto do título narra um assalto violento praticado por dois ladrões miseráveis a uma Resultado de imagem para livro feliz ano novomansão. É sujo, tenso, cruel e mostra a banalização da pobreza, da violência. Este livro traz os contos Passeio Noturno I e II, que mostram como o verniz social não é capaz de aplacar todas as idiossincrasias do homem. Acho o primeiro, aliás, um dos melhores contos já feitos na nossa literatura, sério.

Outro conto que chama a atenção pela narrativa acelerada e o ritmo absurdo dos acontecimentos é Agruras de Um Jovem Escritor; outro que é agridoce, de certa forma, é Corações Solitários, em que um jornalista aceita trabalhar em um jornal voltado para o público feminino. Aqui também há um conto com o personagem Mandrake, que é recorrente na obra do escritor ( Dia dos namorados). Também destaco O campeonato, o mórbido Nau Catrineta e a forma interessante como a linguagem foi trabalhada no conto 74 Degraus.

Resultado de imagem para rubem fonsecaRubem Fonseca é um dos maiores escritores da nossa chamada 3ª Geração Modernista; ganhador do maior prêmio da língua portuguesa, o Camões, ele também foi jornalista, empresário e policial.

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Resenha de Amar, Verbo Intransitivo

Oi, gente!

Sim, eu dei uma daquelas minhas sumidas ~básicas neste mês. Motivo: provas, provas e mais provas. Tanto para elaborar como para corrigir, o tempo está sendo muito curto e milhões de testes caíram sob a minha responsabilidade (vida de professora, amores).

Pois bem, mesmo assim, eu terminei de ler bravamente o livro Amar, verbo intransitivo, de Mario de Andrade. Para vocês terem noção da correria, faz um tempão que li e não conseguia fazer a resenha!

Mas, aqui está a linda!

Amar, verbo intransitivo, é um livro da chamada 1ª Fase Modernista, ou seja, pode esperar dele experimentalismos estéticos e linguísticos, que era o que os modernistas desta fase buscavam.

Ele é de autoria de Mario de Andrade, e foi lançado em 1927, causando um choque na sociedade burguesa ao tratar de um assunto polêmico: Elza, uma alemã que estava morando no Brasil, fora contratada por um rico burguês e cafeicultor como governanta. Na verdade, porém, a sua função na casa será a de iniciar sexualmente o filho do ricaço Sousa Costa, Carlos, um rapaz adolescente.

A protagonista passa a ser tratada como Fräulen e a dar lições de Alemão para as crianças da casa, com dedicação especial ao garoto, óbvio, devido ao contrato que firmara com o pai dele.

De início, Carlos não cai na sedução da governanta, e isso gera muitos embates filosóficos e psicológicos na alma da Fräulen. Aliás, muitas vezes o livro faz essa imersão no perfil psicológico dela, fazendo uma comparação com o modo alemão dela de enxergar o mundo, as suas aspirações e a forma como encarava aquele serviço “especializado”.

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A linguagem do livro é um dado à parte, pois Mario buscou aproximá-la do coloquial, reproduzindo falas e expressões da época para que os diálogos e até a narração soassem bem naturais.

Outra coisa que sempre me chamava a atenção no título deste livro era o “intransitivo”. Gramaticalmente, amar é verbo transitivo direto, o que denota o fato de que você obrigatoriamente precisa de algo ou alguém para amar. No caso de Fräulen, ela simplesmente ensina a amar, a sentir, a ter o sentimento e transformá-lo em ação. O que Carlos e qualquer outro pupilo faria a partir disso já não era mais com ela.

Em um dado momento, claro que o menino se interessa por ela e eles passam a ter encontros apaixonados e furtivos. O desenlace é previsível: quando a missão dela está cumprida, ir embora se faz necessário, para que o menino continue seu percurso nas trilhas do amor sozinho.

Fräulen é ambígua, sendo forte e amorosa, seca e doce quando preciso. Mostra as contradições de alguém que inicia a vida sexual de adolescentes ricos ( prevenção tomada pelos pais dos mesmos para que os filhos não caiam nas garras de prostitutas inescrupulosas) de forma paga, mas acredita que, com todo o dinheiro junto, ainda poderá ser feliz e ter uma vida confortável na sua Alemanha.

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