Resenha de Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Um dos meus livros favoritos da vida traz a história de um morto que, depois de bater as botas, lá do além, decide escrever as suas memórias fazendo pouco caso da sociedade hipócrita da época.

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Pôster do filme homônimo baseado no livro

Ácido, pessimista, irônico, filosófico e divertido, Memórias Póstumas De Brás Cubas, de Machado de Assis, é considerado o marco inicial do Realismo no Brasil por ser tudo e mais um pouco. Aliás, este livro consegue ultrapassar tantos paradigmas que, na minha opinião, permanece com esse ar de coisa nova, zombeteira até hoje.

Por ensinar Literatura na escola, sei das dificuldades que a maioria dos alunos têm para entender o texto machadiano. De fato, a cada geração, as diferenças linguísticas aumentam mas, nem por isso, são motivo para desistir de ler um dos autores mais geniais já publicados.

Memórias Póstumas De Brás Cubas, como já foi citado, é narrado por Brás Cubas, um homem que, em vida, foi um playboy que aproveitou tudo o que podia. Ele sabe que nasceu em uma condição social favorável, privilegiada, e suas escolhas de vida são individualistas e, às vezes, inconsequentes.

Na juventude, seu romance com a prostituta espanhola Marcela rendeu uma das citações machadianas mais conhecidas:

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”  

Indignado com a falta de prudência financeira do filho, seu pai o envia à Europa para estudar e ele, mais uma vez, gasta seu dinheiro em farras até conseguir se formar.

Ao voltar para o Brasil, conhece Virgília, uma das personagens femininas mais típicas da estirpe criada por Machado: enigmática, madura, racional, envolvente. E, como sempre elas fazem nas obras do autor, dão um drible nos personagens masculinos. Virgília, apesar de amar Cubas, se casa com Lobo Neves porque este “rouba” do outro a candidatura de deputado que Cubas ambicionava.

Quando eles se reencontram tempos depois, a paixão volta com força e eles se tornam memórias bras-cubasamantes. Solteiro convicto, Brás chega a cogitar o casamento com Virgília, com Eusébia ( moça “coxa” cujos pais ele havia encontrado atrás de uma moita quando era criança), como Nhá Loló…no entanto, a constituição de uma família tradicional realmente não é para ele.

E, quando já está na meia-idade, reencontra Quincas Borba, um antigo amigo de infância que havia se tornado mendigo e que então dizia haver criado uma nova corrente filosófica, o Humanitismo, resultando na seguinte premissa:

“Ao vencedor, as batatas!”

Quincas, que tinha uma estranha consciência da sua loucura, é um grande companheiro para Cubas até partir para Minas Gerias e ficar milionário ( e, se você quiser saber as consequências da fortuna recebida por Quincas, leia o livro de mesmo nome).

Solitário, Cubas decide criar algo que ele julga revolucionário, “um medicamento memórias póstumas1extraordinário que serviria para aliviar a melancolia da humanidade, iria chamar-se ‘Emplasto Brás Cubas’”. E, é por causa da sua invenção que ele pega uma friagem, desenvolve uma pneumonia e morre.

O último capítulo deste livro ( cujos capítulos, aliás, são ágeis, curtos e cortantes) é um daqueles trechos que podem passar mil anos e você ainda consegue se lembrar de cor e salteado:

“Capítulo CLX     Das negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e directa inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

E assim encerra-se o livro em que o morto fala da sua vida sem se limitar às mesquinharias sociais, dedica o livro ao “primeiro verme que roeu suas frias carnes” e que continua a ser incrível em sua análise ferina da burguesia, na melancolia das suas tiradas irônicas e no olhar pessimista que lança sobre a humanidade.

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Dom Casmurro

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Falar sobre um dos livros favoritos não é tarefa fácil, porque envolve lembranças afetivas misturadas às próprias lembranças que você tem do livro. Dom Casmurro entrou para a minha lista de favoritos por ser, para mim, um dos melhores já li, em todos os sentidos.

Dom Casmurro faz parte do que na literatura brasileira se convencionou chamar de “tríade machadiana”, ou seja, os três livros tidos como essenciais do Machado de Assis. A tríade é composta pelo também maravilhoso e incrível Memórias Póstumas de Brás Cubas (livro que deu o pontapé inicial do Realismo no Brasil) e  também por Quincas Borba (sim, eu li todos várias vezes e tenho os três rsrsr).

Machado de Assis é considerado como o maior escritor da nossa literatura, muito por causa destes três livros citados, além de contos inesquecíveis. A sua forma concisa, irônica, arguta e até pessimista de contar histórias e de criar personagens que até hoje povoam nosso imaginário, além dos diálogos que mantém com o leitor, mostram que seus livros nunca envelhecem.

Quer prova maior de que isso seja verdade? Com certeza qualquer pessoa que já tenha lido um pouco e que tenha se educado no Brasil, pelo menos já ouviu falar de Capitu e do rolo que atravessou dois séculos: e aí, Capitu traiu ou não Bentinho?

Tudo parte da premissa de que Bento Santiago, o verdadeiro nome do “dom Casmurro”, já entrando na velhice, decide, como ele mesmo diz, “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Ou seja: no presente, já sozinho, ele decide contar a sua vida e sua paixão por Capitu, que foi perpassada por suas desconfianças.

Conhecemos então o jovem Bentinho: filho único que quase não nasceu, desde pequeno carrega sobre os ombros a responsabilidade de cumprir a promessa da mãe, D. Glória, de se tornar padre. Ele demonstra inclinação para a vida religiosa até ter seus sentimentos despertados pela vizinha da sua idade, Capitu. Ela é o oposto dele: enquanto Bentinho é tímido, tem certa falta de jeito, ela é determinada, perspicaz, é charmosa e sabe usar isso a seu favor. É justamente a partir desse fascínio que Capitu impõe, que o Bentinho mais velho acha subsídios para alimentar suas atitudes (e paranoias).

Ele acaba indo para o seminário, enquanto não consegue uma forma de convencer a mãe de que não quer mais ser padre, edom casmurro1 lá conhece seu melhor amigo: Escobar. De uma certa forma, ele é a outra pessoa forte e determinada que fascina Bentinho. Depois de uma ideia bem bolada por Capitu e assegurada por um agregado da família, José Dias, Bentinho se vê livre do seminário e se casa com a garota.

Ezequiel e Sancha (melhor amiga de Capitu) também se casam, e tudo parece ir muito bem na vida de todos. Apenas os ciúmes da mulher parecem turvar o julgamento de Bentinho, que sempre está procurando indícios nas atitudes da esposa algo que justificasse o que quer que fosse. Quando eles têm um filho, Ezequiel, parece que a felicidade finalmente se completa… até o menino, quando mais grandinho, passar a ser muito bom em imitações das pessoas com as quais convivia e ir ganhando características de Escobar.

dom casmurro

Os ciúmes vão se tornando cada vez mais frequentes até o ponto em que Escobar morre afogado, em um dia de ressaca do mar. A fatalidade pega a todos de surpresa, e desde a forma como Capitu chora e olha para o morto até o jeito do filho despertam em Bentinho desconfianças desenfreadas (ele chega a dar veneno para Ezequiel tomar, mas se arrepende antes). Tanto ciúme destrói as vidas deles, e cada um para um lado. Capitu morre na Europa, anos depois, e Ezequiel, já rapaz, morre em Jerusalém.

Bentinho termina só, sem amigos, sem família, tentando de alguma forma remendar ou justificar o que aconteceu e seu ponto de vista. Como a história é toda contada pela visão dele, nunca poderemos dizer com certeza se Capitu realmente foi infiel, e é isso que eu mais acho incrível neste livro: a capacidade de esse mistério persistir e de Capitu ser, simplesmente, a personagem feminina mais instigante da nossa literatura.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.

( Dom Casmurro, pág. 64 – Ed. ÁTICA, SÉRIE BOM LIVRO)

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Machado de Assis, escritor carioca nascido no Morro do Livramento, era mulato, gago e epilético, o que não o impediu de tornar-se um dos maiores escritores da Língua Portuguesa. Escreveu romances, contos, crônicas, peças de teatro, poesia, críticas literárias e traduções. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.