Resenha de “Lugar Nenhum”, de Neil Gaiman.

Oi, gente!

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“Dizer que ‘Lugar Nenhum’ é uma espécie de ‘Alice no País das Maravilhas’ com uma virada punk não faz justiça ao primeiro romance de Neil Gaiman, mas serve para definir seu tom. Gaiman é mestre na arte de criar e povoar mundos. Em Lugar Nenhum, ele consegue se superar”. ( Poppy Z. Brite)

Bem, eu sei que demorei muito a postar no meio deste mês, e detesto aparecer com desculpas… porém, como adoeci por uma semana com uma forte virose, mudei de emprego e estava atolada em planos de aula infindáveis, acho que mereço um desconto, né? A verdade é que, com a mudança de rotina, sinto que vai ser obrigatório eu me planejar para postar no blog com antecedência. Vamos à resenha?

O gênero fantasia é um dos meus favoritos. Adoro Harry Potter e Senhor dos Anéis, e acho que esta minha inclinação para aventuras e desventuras com personagens e lugares exóticos vem desde a minha infância, quando eu era fascinada pelo universo do desenho Caverna do Dragão. Quando li um livro do Neil Gaiman há uns anos (Os Filhos de Anansi), fiquei extasiada pela escrita do autor britânico: a trama com de elementos surreais, ágil, cheia de acidez divertida e o melhor: que não infantiliza o tema, que traz uma pegada adulta mesmo retratando situações “não-reais”, algo que, óbvio, só se pode esperar do autor de Sandman, um dos marcos das HQs, um verdadeiro clássico que revolucionou o gênero – e que é muito claro, eu vou ler!

O livro do escritor que tive o maior prazer em ler desta vez foi Lugar Nenhum, que originalmente o Gaiman escreveu para uma ser uma série da BBC, e acabou se tornando em seu primeiro romance. Narra como o pacato Richard Mayhew, que levava uma vida sem graça (trabalho, namorada chata, apartamento pequeno), de repente, ao ajudar uma garota machucada e caída no meio da rua, vê tudo mudar de uma hora para outra.

Após ajudar a garota desacordada, Door, estranhas coisas acontecem com Richard, que o levam para aquilo que se denomina de “Londres de baixo”, um lugar que só quem cai nas fendas da “Londres de cima” é capaz de conhecer. Sem querer, ele faz parte de uma caravana formada por Door, uma moça filha de uma rica e importante família deste mundo inferior, o marquês de Carabas, um dândi cheio de truques e malandragem e Hunter, a melhor caçadora de que já se teve notícias ali.

Personagens do livro
                                                                          Personagens do livro

Door perdeu a família de forma brutal e busca saber os motivos disso ter acontecido; para tal, é preciso fugir de dois assassinos de aluguel sanguinários (o senhor Vandemar e o senhor Croup). Quem tem como ajudá-la com isso é um anjo, Islington, que precisa de uma chave em troca deste favor que fará à garota. Achei incrível a forma como o escritor vai descrevendo Londres, seus pontos turísticos, as pontes, as estações do metrô, a história da cidade, não tem como não se sentir lá! A “Londres de baixo”, apesar de ser extremamente peculiar, guarda semelhanças com a de cima, mas tem um fator que a torna mais especial ainda: o Mercado, uma espécie de feira em que se vê de tudo e que acontece nos lugares mais improváveis.

Gostei bastante da história, que perto do fim dá uma virada espetacular e fica mais interessante ainda. A capacidade de nos prender às páginas do livro com uma linguagem fluida, com ricos detalhes e uma trama bem amarrada parece ser intrínseca ao Gaiman, e isso só me deu mais vontade de ler tudo o que ele já fez, fora o que já li, e continuar a ler o que ele lançar!

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“Lugar Nenhum” também se tornou história em quadrinhos, sendo adaptada por Mike Carey e desenhada por Glenn Fabry.

Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente

Oi, gente! Desculpem a demora nas reviews, mas tive uma semana superdifícil, com direito à gripe para fechar com chave de ouro, masssss… estamos na luta!

Eu não sei por que não tinha lido antes nada da Agatha Christie. Uma lacuna enorme que eu deveria preencher, assassinato do expresso do orienteprincipalmente pela vastidão da obra da escritora, pela sua fama e porque eu chegava a indicar até mesmo pros outros (!). Estava mais que na hora de criar vergonha e ir atrás. Eis que me emprestaram e eu amei a edição especial que a Nova Fronteira tem feito de muitos livros dela, com capa linda e dura, esta aqui da foto ao lado.

Por coincidência, descobri que o livro que devorei nestes últimos dias, “O assassinato no expresso do Oriente” foi publicado há exatamente 80 anos.

Conta como Hercule Poirot, um detetive que é uma das personagens mais recorrentes na obra de Christie, está voltando para Londres da Síria e se envolve em um caso muito complexo ao pegar o Expresso do Oriente. Um homem rico e misterioso, um certo Ratchett, no meio do percurso é assassinado com 12 facadas e o trem fica preso em uma nevasca. Todos os passageiros do carro Istambul-Calais parecem ser inocentes, e cabe a Poirot desvendar um caso que parece indecifrável.

Rapidamente, o detetive descobre que Ratchett fora um assassino e sequestrador cruel, fugitivo dos EUA e que originalmente se chamava Cassetti. Há alguns anos, ele tinha se envolvido no bárbaro crime contra uma menininha, desfacelando toda a sua família. Isto ficou conhecido como “caso Armstrong”, e Poirot seguiu nesta pista e rastreou cada suspeito, descobrindo pontos obscuros até chegar à verdade.

Óbvio que não dá para descrever muito, pois a graça de histórias como essas residem justamente no mistério. Fazendo uma pesquisa, descobri que “Assassinato no Expresso do Oriente” foi um dos maiores sucessos da escritora, sendo adaptado várias vezes para Tv e cinema.

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Eu vi esta página muito legal na internet e recomendo pra vocês lerem e saberem um pouco mais sobre o livro e a autora: http://jornalismojunior.com.br/sala33/agatha-christie-80-anos-de-o-assassinato-no-expresso-do-oriente/ . 😀

“A Metamorfose” – Franz Kafka

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Oi, gente!

Este livro do qual teremos resenha hoje é um clássico daqueles que eu amo indicar e que, na minha humilde opinião de professora de literatura, é indispensável. Estou falando de “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Não o li recentemente, mas foi neste ano 🙂

metamorfose kafkaLembro-me de estar procurando por alguns livros no meu local de trabalho e me deparar com uma edição bem simples deste livro. De cara, peguei e só desgrudei quando acabei.

É uma obra, no mínimo, perturbadora, que mexe com você e te faz refletir sobre a vida, sobre seu papel nela, dentro da sua família e sobre o que te move. O livro é uma metáfora sobre valores, diferenças de atitude, sobre “o quão você é realmente importante”.

A trama narra como o pacato Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, um dia acorda transmutado em um inseto. Seu trabalho é a principal fonte de renda da família, constituída por pai, mãe e a irmã caçula. Ele não gosta do chefe, nem do trabalho, mas segue sua vida como uma obrigação à qual deve obedecer irremediavelmente, até este dia fatídico.

Gregor se sente mal, indisposto, e coisas diferentes começam a acontecer com o seu corpo. De humano ele se transmuta em uma barata, o que não é logicamente explicado ao longo da história, mas isso deve ser levado em consideração pelo fato de ser uma alegoria, ou seja, um recurso estilístico do autor para abordar temas mais complexos.

A família de Gregor, que dependia dele, vai progressivamente isolando-o dentro do quarto, por repulsa a sua nova condição. Apenas sua irmã ainda tem um pouco de compaixão, mas ele mesmo se mostra constrangido e vê como aquela condição de “ser inseto” é limitadora.

E, à medida que a sua nova forma vai se consolidando, que todos veem que ele não vai mudar, os que antes dependiammetamorfose2 de Gregor dizendo-se incapazes de trabalhar muito acabam aprendendo a se virar, o que, consequentemente, vai os afastando do filho mais velho. O tratamento passa a ser cada vez mais duro, pois ele é “a coisa” que precisam esconder, que os envergonha, e que não ajuda mais em nada: um fardo.

Ao final, Gregor escuta a irmã, de quem tanto gostava, tocando violino na sala e vai até lá. O pai o expulsa, atirando maçãs nele, acuando o filho/inseto dentro do quarto. Rejeitado, machucado e abatido, ele não resiste aos ferimentos e morre.

A escrita de Kafka é seca, objetiva, mas consegue te envolver de uma forma singular, tornando impossível você não sentir, de uma certa forma, tudo o que Gregor sentiu.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. ― O que aconteceu comigo? — pensou.”

"Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883, cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara. Filho de um abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico. Esse híbrido de ironia e lucidez aparece na maioria dos textos de Kafka." ( retirado de http://almanaque.folha.uol.com.br/kafka.htm)
“Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883, cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara. Filho de um abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã.
Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.
Esse híbrido de ironia e lucidez aparece na maioria dos textos de Kafka.” (retirado de http://almanaque.folha.uol.com.br/kafka.htm)

Bom, gente, sei que o LA ficou meio sem postagens nessa semana, mas é que a correria está tensa! Rsrsrs

Quero dizer que vou conciliar o ritmo de postagens com o da minha vida, que já comprei montes de livros ( mas alguns vou ter que esperar porque virão pelo correio), e tem indicação de tag, parceria com outro blog, enfim… AGUARDEM!

Especial Mês do Terror: 3 contos de Edgar Allan Poe

poe

Oi! Hoje é dia da Bruxas, e nada melhor que encerrar o nosso especial do mês do terror falando de alguns contos conhecidos do mestre deste estilo na literatura, Edgar Allan Poe.

Eu era louca para ler Poe, mas nunca conseguia. Porém, como o Especial do Mês do Terror também era um desafio para mim, o propósito finalmente ficou mais fácil de ser atingido, e vou dizer: não vou parar nestes que conheci! Vou comprar livros dele, com certeza!

Então, vamos lá:

Willian Wilson

Neste conto, conhecemos o homem que adota o nome de Willian Wilson, que vai logo nos dizendo que isso foi preciso Willian WIlsonpelo fato do seu nome verdadeiro já ser objeto de muita vergonha para a sua família.

Ele é quase como a síntese humana dos vícios e da maldade, apresentando tal comportamento desde a infância. Na escola, onde começou a desenvolver esta personalidade, a única coisa que consegue estancar um pouco seus maus hábitos é a presença de um outro garoto, muito parecido com ele, com seu mesmo nome e data de nascimento. Isto é perturbador, e, ao longo da vida, a presença deste “duplo”, quando Wilson menos espera, reaparece.

Seja acusando-o e revelando os seus crimes para os outros, seja dando-lhe conselhos, é estranha a espécie de perseguição que o “duplo bom” de Willian Wilson faz. Até que, um dia, em um baile em que desejava “aprontar” e vê seus planos em perigo ao ver o outro, o Wilson mau se zanga e chama o outro para um combate. Dominado pela fúria ele o mata a golpes sucessivos de espada, e o espantoso fica guardado para o final, quando o agonizante Wilson “bom” declara:

“- Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo.”

Na minha concepção, este conto mostra que, na verdade, os dois eram a mesma pessoa, mas que um tinha a essência boa e o outro, a ruim. Como não possuía a bondade em si, era preciso que o Wilson bom acompanhasse o ruim, sendo que este, ao eliminá-lo, perdera as chances de se salvar para sempre.

a máscara da morte rubraA Máscara da Morte Rubra

Este conto, que em algumas outras versões em português contém variações para a cor da máscara (pode ser chamada “da morte vermelha” ou “escarlate”) narra como um tipo devastador de morte que se espalhou em um reino.

“Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.”

O príncipe deste lugar resolve, então, mudar-se para um castelo altamente fortificado e distante, levando consigo apenas pessoas mais íntimas de sua corte. Durante meses, ele crê que conseguira driblar a morte que assola seu país, vivendo afugentado ali.

Um dia, ele resolve dar um baile suntuoso. De acordo com as suas indicações, a decoração e as vestimentas dos convivas são excêntricas e luxuosas, e cada ambiente recebe uma cor com iluminação especial. A única coisa que os perturbava eram as batidas de um tenebroso relógio. Quando este marca meia-noite e as batidas se sobressaem a todo som, uma figura sinistra aparece, parecendo encarnar a própria Morte…

Dos contos do Poe que li, este foi o que mais me hipnotizou. A sequência final é magistral!

Por último, li outro que é também um clássico do escritor:

O Barril do Amontillado

o barril do amontillado

O cerne deste conto é a vingança. Um amigo que decide vingar-se de outro por conta de injúrias e que vai escolher um tipo bem tramado e maquiavélico de “justiça”. Era curiosa para ler este conto porque já o tinha visto sendo citado como uma das obras da literatura que melhor abordam este tema ( e, ao que me consta, parece ter inspirado “Venha ver o pôr-do-sol”, da Lígia Fagundes Teles, que inclusive eu resenhei no post passado).

O protagonista atrai Fortunato, o alvo da sua ira vingativa, para uma espécie de adega que possuía em seu palácio, com o intuito de fazê-lo provar uma bebida. Fortunato já estava embriagado, o que facilita ainda mais o plano.

“Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo. Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma sequência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.
O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos. – E o barril? – perguntou. – Está mais adiante – respondi.”

Pode-se dizer que os requintes sórdidos do protagonista para atrair sua vítima para a presa são o ponto alto da história. Ele diz várias vezes durante o percurso que, se Fortunato se quisesse, eles poderiam voltar. O outro, bêbado e orgulhoso, nem percebia que eles iam cada vez mais fundo… e que, daquele lugar, ele jamais sairia. Um conto perfeito!

edgar_allan_poe_
“Edgar Allan Poe (1809-1849), poeta, crítico e contista, nasceu em Boston, representando uma tendência à parte do movimento geral do Romantismo nos EUA. A tendência dos escritores pelo fantástico, pelo misterioso, pelo macabro. Cultivando na sua obra esses temas, Poe personifica uma das tendências mais marcantes do movimento romântico transplantado da Inglaterra para a América.[…] Edgar Allan Poe é considerado o “criador” do conto policial, mas seu principal mérito está na habilidade com que montava suas histórias. Ele as planejava como um bom arquiteto planeja um edifício, envolvendo o leitor de tal maneira que o conduz “hipnoticamente” ao desfecho da história. Isso revela o dualismo de sua arte e personalidade: de um lado “visionário e idealista”, mergulhado em poemas de tristeza e narrativas de horror e policiais. Um homem de vida conturbada, dominado pelo vício do álcool e excesso de ópio. Por outro lado, era um “artesão exigente”, um escritor que orgulhava de sua técnica e do racionalismo com que criava suas histórias. É essa dualidade que o projeta como um dos mestres da literatura mundial.” FONTE: http://www.infoescola.com/escritores/edgar-allan-poe/

O Vermelho e o negro

o vermelho e o negro

Ontem, exatamente às 22:30 horas, eu fechei o meu volume de “O vermelho e o negro” e soltei um suspiro. A sensação de ler uma obra tão incrível foi de saudade, misturada com perplexidade, porque foi bem marcante para mim.

Este livro, cujo subtítulo é “Crônica do século XIX”, é bem melhor absorvido quando você tem um embasamento histórico do período retratado nele. A França, país em que a trama se ambienta, em pouco tempo passou por profundas e irreversíveis mudanças: a Revolução em 1789 e o período napoleônico. Stendhal, o próprio autor, cresceu durante esta época, e, no romance, buscou mostrar como o país, já em 1830, tendo passado por uma restauração da monarquia após a queda de Napoleão, era bem diferente do que muitos poderiam supor.   julien

O título do romance, segundo muitos estudiosos, é uma espécie de alusão ao vermelho das armas e ao negro da batina, ou seja, aos dois caminhos buscados por Julien Sorel para subir socialmente.

Julien é um rapaz pobre, filho de um carpinteiro de uma cidadezinha no interior francês. Mas, não se engane: ele é astuto, inteligente, orgulhoso e vai agarrar muitas oportunidades para seguir o futuro glorioso ao qual se acha reservado. Apaixonado pela figura de Napoleão, seu ídolo, ele trama consigo mesmo planos ambiciosos e inconstantes o tempo todo. Mesmo Julien sendo um anti-herói, eu simplesmente me apeguei de uma forma como não acontecia comigo em relação a um personagem há muito tempo. Por ele ser muito jovem (começa a história aos 17, 18 anos), as trapalhadas involuntárias dele, a falta de traquejo social, os arroubos de paixão, as repentinas melancolias, os planos furados, enfim, tudo o aproxima de qualquer jovem comum, de qualquer época, que acaba “metendo os pés pelas mãos” quando as coisas saem de seu controle.

Bem, vamos ao desenrolar dos fatos: Julien é protegido de um velho padre da Varrières (cidade fictícia, aliás). Com ele, o rapaz aprende tudo sobre a Bíblia e latim com perfeição. O primeiro grande golpe de sorte da sua vida surge quando se torna preceptor (uma espécie de professor particular em tempo integral) dos filhos do casal de Rênal. Ele é o prefeito da cidade e sua esposa é uma mulher ingênua, que nunca tinha se apaixonado de verdade… isso até conhecer o filho de carpinteiro jovem e bonito, Julien. A paixão entre eles é incontrolável e ardente; entre a hesitação dela e a vontade de provar-se a todo instante, quase que o caso entre os dois é descoberto. Isso domina toda a primeira parte do livro, que termina quando ele decide ir para o seminário em uma cidade vizinha e um pouco maior que a que morava, Besançon.

gravuras do livro o vermelho e o negroLá chegando, acontece um dos momentos mais hilários do livro. O que me chamou a atenção é que a linguagem de Stendahl é contida, segura, não se perde em floreios desnecessários, mas há passagens em que ele, não querendo escrever algo literalmente engraçado, acaba fazendo muita graça, principalmente quando Julien demonstra sua falta de tato. Não à toa, o autor francês influenciou ninguém menos que Machado de Assis, por isso creio que a leitura de “O vermelho e o negro” foi tão envolvente, já que eu sou #TeamMachado de carteirinha, e encontrei muitos pontos em comum entre eles.

Enfim, Julien desmaia de pavor do padre que o recebe no seminário, Pirard. Severo e feio, o padre provoca e testa o rapaz até às últimas consequências, mas ambos acabam gostando um do outro. Tanto que o padre, envolto em intrigas de inimigos, vai para Paris e leva o seminarista junto, para ser secretário de um marquês, o sr. De La Mole.

Na Paris sedutora, o protagonista se vê alvo da hipocrisia, e vive enfadado até se envolver com Mathilde, a filha caçula do patrão. A relação dos dois, a meu ver, é mais sobre “estar apaixonado pela ideia de se estar apaixonado” que qualquer outra coisa. Ambos são orgulhosos, ambiciosos, têm a personalidade forte e se entregam a um namoro inconsequente mais pela vontade de experimentarem algo real que por um amor verdadeiro. De tudo isso, a srta. De La Mole fica grávida. Julien consegue várias vantagens nisso, e, quando já está no exército com uma alta patente e dinheiro assegurado para viver confortavelmente ao lado de Mathilde, fica sabendo que o pai dele recebeu uma carta da sra. De Rênal contando todo o caso que tivera com o rapaz.

Transtornado, ele volta à Varrières e atira na mulher de quem tinha sido amante bem no meio da missa. Preso, ele cai em si e percebe que a única solução viável para seu fim é a guilhotina. A sra. De Rênal não morre e o perdoa, revelando que a carta não fora escrita por ela. Particularmente, eu não gosto de contar o final dos livros que resenho, mas posso garantir: “O vermelho e o negro” é denso sem ser “difícil de ser lido”, irônico, inteligente, uma fusão de literatura e história que poucas vezes saiu tão perfeita.

Seu verdadeiro nome era Henri-Marie Beyle, mas ficou  conhecido como Stendhal. Conhecido nos salões parisienses, suas obras são conhecidas pela linguagem objetiva e pela análise psicológica dos personagens.
Seu verdadeiro nome era Henri-Marie Beyle, mas ficou conhecido como Stendhal. Conhecido nos salões parisienses, suas obras são conhecidas pela linguagem objetiva e pela análise psicológica dos personagens.

Que desgraça! Talvez me falte caráter. Teria sido um mau soldado de Napoleão.

Pessoal, eu gostaria de agradecer ao número de seguidores que o LA tem ganhado ao longo dos dias. Isso aqui não é só um simples passatempo, há muito amor, esforço e dedicação. Não sei se vcs sabem, mas eu passei por uma cirurgia bem séria no tornozelo direito e agora que estou voltando. Prometo que vou organizar meu ritmo de postagens, e podem ter certeza de que eu estou muito contente com o retorno e empenhada em fazer algo cada vez melhor! 😉