Uma Palavra

texto uma palavra1

Uma palavra após a outra

São como passos

Uma

Outra

Respiração compassada

Buscando dentro de mim

Tudo de novo

Traduzindo

Identificando

Escaneando

Uma palavra para as notícias do jornal

Que me atingem como soco no estômago

Jovens apanham porque querem uma educação melhor

Enquanto corvos bicam a chefe da nação

Como pássaros de Hitchcock

Uma palavra

Para quem não quer entender nada

E insiste em estar certo

Enquanto você grita não, não, não

Uma palavra

Que sai engasgada

De dentro do meu coração

Que é corinthiano

Que é frio e racional

Aquariano

Que também sofre, quer, esperneia

Ama

Uma palavra

Para descrever o livro que está lendo

E o espanto eterno diante de um verso novo

Drummond, Pessoa, Bandeira

E o mundo é outro e eterno de novo

Uma palavra

Para os amigos que somem

Para os amigos que a vida consome

Para aqueles de longe

Mas que estão tão perto

Meu Deus, uma palavra

Para Te Louvar

Para dizer que provavelmente sem Ti

Eu não seria nada

Uma palavra

Para estes versos modernistas

Uma palavra

E eu só preciso de uma

Para toda a tessitura ser trançada mais uma vez

 

Reflexão sobre o nosso tempo

Que País é Esse? - Legião Urbana
via Renato Russo de A a Z

“I

Esse é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se

na pedra.” ( Nosso Tempo, Carlos Drummond de Andrade)

 

Possivelmente, esta é a maior crise política que os mais jovens devem ter visto na vida. Eu, que fiz 30 nesse ano, não me lembro de alguma vez ter tanto medo de uma revolução, de um golpe, de uma volta da ditadura como agora. Estamos andando sob uma linha tão tênue que o medo não está equivocado: ele parece vislumbrar o futuro e o passado ao mesmo tempo, nos mostrando o que já houve e o que poderá vir acontecer se certas coisas não forem freadas agora.

Não me parece haver forma melhor de pensar o que vivemos hoje que ler os dois primeiros versos deste poema fenomenal:

Esse é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Há uma polarização que já está beirando ao irracional no Brasil de hoje. E o que você quer pro seu país? Eu não quero um país de estagnação econômica, que retroceda nas políticas públicas, que perca tudo o que já avançou na cidadania. Faço parte de uma geração que não teve seu pensamento cerceado, e quero que isso continue.

Acima de qualquer bandeira partidária, a democracia precisa ser preservada, e, me desculpe quem acha isso, mas não é “endeusando” um juiz que grampeou ilegalmente, ao que parece, a própria presidente, que as coisas terão solução. Também aviso que, se você saiu às ruas para xingar ancorado na misoginia a mulher que governa o país, provavelmente este texto não é para sua leitura.

Este tempo que o Brasil vive é de tensão, mas não é para se levar como se fossem dois times disputando uma final. Tudo é muito complexo, e ler, informar-se, antes de sair falando qualquer bobagem é melhor que pagar mico, seja achando que comunistas ameaçam nossa segurança, seja achando que, quando corresponde aos seus interesses, a lei pode ser driblada. Por isso, que todos estejamos atentos. No fundo, a gente precisa da mesma coisa, que é de honestidade.

Inspiremo-nos nos exemplos que temos na nossa literatura:

memórias do cárcere

 

Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos foi preso em março de 1936, acusado de ligação com o Partido Comunista. Prisão sem processo, mas que não evitou a deportação do acusado, num porão de navio, para o Rio, onde permaneceu encarcerado. Foi demitido do cargo de Diretor da Instrução Pública e levado a diversos presídios, até Janeiro de 1937, quando foi libertado. Dessa experiência resultou a obra Memórias do Cárcere, publicada postumamente em 1953. A obra não é o relato puro e simples do sofrimento e humilhações do homem Graciliano Ramos; é a análise da prepotência que marcou a ditadura Vargas e que, em última análise, marca qualquer ditadura. É um dos depoimentos mais tensos da literatura brasileira. ( http://www.passeiweb.com/estudos/livros/memorias_do_carcere)
O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova.
Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra liberdade e por ela briguei.... Frase de Oswald de Andrade.

Jorge Amado:

Eu continuo firmemente pensando em modificar o mundo e acho que a literatura tem uma grande importância.

 

florais I ( Cacaso)

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

  Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Para encerrar, mais Drummond:

Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

O dia para pensar na condição feminina

dia da mulher montagem.jpg

Dia da mulher. Sei que esta é uma data controversa.

Milhares de mulheres morreram queimadas em uma fábrica ( por isso que esta “comemoração” existe) e, até hoje, outras milhares sofrem os mais diversos abusos porque não têm seus direitos respeitados. Não é fácil ter consciência de que a luta é ininterrupta e que não serão flores, bombons, cartões e mensagens bonitinhas que vão mudar a realidade.

Por isso, sejamos como Clarice Lispector, que verbalizou todo um mundo de mistérios não-verbais, sensações e pensamentos que estão em constante mutação.

Sejamos como Ana Terra, que conhecia a linguagem do vento, do tempo, que conhecia o destino e com ele não brigava, mas dava as mãos.

Vamos agir como Dora, a única menina dos Capitães, que morreu cedo demais, mas amou o garoto, a vida, a liberdade ao sol.

E, que tal ser sagaz, tocante, inspiradora e complexa como a Lygia? Quantas nuances somos capazes de ter?

Eu quero que toda mulher, toda menina, tenha em si uma Malala interior, uma Anne Frank  que sabe o tipo de mundo em que quer viver, e, a seus modo, com o pouco que lhe é oferecido, faça a sua própria revolução.

Que todas as mulheres tenham o olhar da Capitu, aquele enigmático que nunca entrega o jogo… e que todas sejam também Hermiones nos estudos, Lunas na vida, Katniss nas lutas diárias…

Não tenhamos medo. Despertemos para o respeito e a igualdade.

#Gente, algumas coisinhas que não estavam previstas no script da minha vida atrapalharam um pouco as postagens no blog, mas, não temam!  kkk A partir dessa semana, programação normal! 😀

Crônica: Sentir

Tumblr-Pictures-Love-11-HD-Wallpaper

Eu queria ter as palavras mais bonitas e precisas.

Para quê?, você pergunta.

Apago.

Escrevo.

Isso não presta.

Volto.

Recomeço.

De repente, tudo e nada vêm à minha mente. De repente, uma música, o cansaço do dia inteiro, todas as dúvidas, as emoções conflitantes, tudo quer transbordar.

É o tudo e o nada que espinham, que cutucam. Forma-se um nó na garganta, coisas voam como vespas tenazes em torno do seu juízo. E se fulano não quiser falar comigo? E se sicrano guarda alguma mágoa de mim? E se o U2 vier mesmo para o Brasil, por que ainda não juntei dinheiro para ir? E se, e se, e se. Coisas bobas importantes úteis fúteis cheias vazias esmagadoras leves misteriosas claras grandes finitas.

Por que você apenas não sossega?

Você mandaria Clarice Lispector se aquietar? Não imagino isso. Ou: Virgínia Wolf, senta aí mulher, deixa de neura. Fernando Pessoa, hômi, para de nóia, tu é um só apenas e acabou-se a história. Drummond, negócio de gauche, isso é coisa de desocupado. Será que eles também não eram movidos por este tridente invisível que ficava cutucando-os até ele se sentarem e começarem a escrever?

Por que você não pode simplesmente ser como todo mundo?

Eu lá sei como é todo mundo!

Mal sei de mim, essa colcha de retalhos que anda, fala, pensa, sente. Não sei como é não colocar pra fora o que me anseia, como é não perceber isso direito, como sublimar as inquietações mais interiores de forma a enterrá-las no fundo da alma. Será que tem gente que nasce sentindo mais que os outros? Enxergando mais fundo, como se guardasse um pouco mais de humanidade dentro de si, com toda a consciência de nossas idiossincrasias que outros? Será que eu sou uma dessas pessoas que é meio isso, radar às vezes despreparado para tanta exposição à dores, medos, amores, guerras, tristezas, alegrias?

“Só o acaso estende os braços pra quem procura abrigo e proteção.” (Legião Urbana)

Crônica: Sobre esperas

Bem, gente, hoje a postagem é um pouco diferente do que venho fazendo aqui no blog. Eu adoro escrever, mas o tempo puxado muitas vezes não me deixa mais organizar minhas ideias da forma como eu gostaria ( porque eu não sou perfeccionista em nada na minha vida, a não ser com as coisas que escrevo). Mas eis que me veio uma luz e, além desta crônica ter me surgido na mente, também me veio uma vontade de inserir estes meus escritos aqui no blog. Provavelmente, o básico do LA sempre serão as resenhas, mas eu gostaria de, nem que fosse de vez em quando, dividir estes meus pensamentos com quiser der uma passadinha marota aqui 😉

esperando

Sobre esperas

Passamos a vida esperando por algo que talvez possa nos levar além. Tudo tem a tendência de ficar melhor no futuro, se a gente esperar mais…

A pessoa certa, o emprego dos sonhos, a casa bacana e bem decorada, e até nós mesmos. Sabemos que no dia posterior seremos mais sábios que no de hoje… e assim, vivemos esperando.

Esperando por um sim, por uma promoção no trabalho, por um sorriso, por uma mensagem que nunca chega, por desculpas nunca pedidas, por gratidão nunca recebida. E por que esperar tanto?

Pode ser medo. Não querer se arriscar é mais fácil que sair na chuva, que botar a cara no sol, que sair no tapa, se assim tiver que ser, para conseguir algo que se queira muito.

Pode ser apenas a necessidade de se sentir seguro, pois, afinal de contas, o seguro morreu de velho, e, provavelmente, de tédio. Para quê sair procurando alguém ou algo que possa me fazer feliz? Para quê essa pressa? Será que é mesmo que o que é do homem ( ou da mulher) o bicho não come?

Acho só que cansei de esperar. Vai ver que nada do que eu achava que viria nunca vai vir, simplesmente porque as coisas não brotam do nada, mas sim precisam ser construídas, fomentadas. Como vou receber o melhor se não investi para ter este retorno? Como vou esperar se não sei nem direito o que quero? Posso esperar por algo, vem outra coisa e, por já ter perdido tanto tempo, ficar com aquilo mesmo, conformando-me?

Não virei corajosa de uma hora para outra, nem vou enfrentar tudo de peito aberto sem medir as consequências. Mas, sabe aquela sensação que muitas vezes você sente quando é muito novo, de que fazer isso ou aquilo é errado, ou é perigoso, e quando você cresce, esta sensação torna-se ridícula? Pois é. Não existem príncipes, meninas e meninos que esperam por tal, nem princesas, meninos e meninas que também esperam por tal. Não existe ninguém perfeito, nem emprego perfeito, nem a batida perfeita ( porque em algum momento as coisas destoam e você tem que se virar com o que sabe fazer). Só espere menos e faça mais agora.

O melhor do caminho não é o final, mas sim percorrê-lo… por exemplo: ir cantando no carro um velho rock em coro com seus amigos pode ser a melhor lembrança de uma viagem do que propriamente o destino final, não é?