Resenha de O Corpo – Stephen King

 

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“Eu nunca mais tive amigos como quando eu tinha 12 anos. Meu Deus, e quem tem?”

O corpo em questão é de um garoto da mesma idade deles (em torno dos 12 anos), que morreu atingido por um trem e ficou na floresta. Um dos meninos da turma, Vern, escuta seu irmão comentar com um amigo sobre o corpo do garoto que estava desaparecido estar na floresta. Vern conta ao seus amigos (Gordie, Teddy e Chris) e, naquele final quente e entediante de verão, parece ser a ideia perfeita de diversão sair por aí e voltar como heróis diante da pequena cidadezinha de Castle Rock.

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Gordie Lachance é o narrador; ele conta a história já adulto, formado, estabelecido como um escritor de sucesso (um alter ego do próprio King?). O garoto havia perdido o irmão mais velho há pouco tempo, e ele era mais ligado a Chris Chambers, filho de uma família conhecida como barra-pesada na cidade e que era o mais maduro dos quatro. Vern Tessio era conhecido por ser o mais “lento” e medroso, e Teddy Duchamp era traumatizado por maus tratos na infância, um tanto quanto pirado, meio cego e surdo.

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Eles saem caminhando pelos trilhos da ferrovia que corta a região e, neste momento da resenha, você já deve ter reparado que conhece essa história de algum lugar, e conhece mesmo: O Corpo virou o filme Conta Comigo, de Rob Reiner, um clássico da Sessão da tarde.

Talvez por isso, por ter passado uma boa parte da minha vida assistindo a esse filme, e por me lembrar tanto da infância, ler O Corpo tenha sido tão emotivo para mim. A história que já conhecia há tempos ainda estava ali: a fuga do trem, as histórias mirabolantes que Resultado de imagem para stand by me tumblr gifGordie já sabia criar (como a famosa parte em que ele conta sobre um concurso de tortas que acabou em vômito generalizado), a parte do mergulho no lago e do ataque de sanguessugas… mas, quando você é adulto, já tem tantas responsabilidades, já teve sua cota de lágrimas e decepções, que às vezes uma história como esta, sobre crescimento e descoberta, tem o poder de te pegar desprevenido.

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Nosso olhar sobre esta história que fala de um verão distante e inesquecível, de um tempo que não volta mais, é o mesmo de Gordie ao falar daquele evento que ele guardou para sempre na memória. Sem dúvidas, O Corpo é pungente, emocionante, melancólico e nostálgico, uma das melhores histórias já criadas por Stephen King.

Conto: Simples assim

Oi, gente! Estou buscando recomeçar a escrever, e nesta semana este conto saiu rapidamente da minha mente para o Word. Espero que vocês curtam!

Beijar-te é como beber água salgada... Enlouquece e não mata a sede. Só aumenta a vontade. Rosi Coelho***:

“É, eu ando em busca dessa tal simplicidade

É, não deve ser tão complicado assim

É, se eu acredito, é minha verdade

É simples assim” (Lenine)

-Quando você entrar, por favor, não faça barulho. – Ricardo pediu ao irmão.

– Pode deixar. Vou colocar pantufas ao adentrar seu glorioso apartamento.

– Pedro, não enche. Eu preciso terminar isso aqui.

O irmão caçula, Pedro, ficou olhando por alguns longos segundos seu irmão, Ricardo, que digitava curvado em frente ao computador.

30 anos, solitário, bonito até com a barba por fazer e o cabelo castanho desgrenhado. Jornalista, adorador de café, criava um gato rabugento e esnobe. Amava uma mulher que não sabia disso, que, por acaso era amiga deles de infância… e iria mudar-se para Londres dali a três dias como o namorado-quase-marido.

– Liga pra ela, seu panaca. – Pedro falou baixo, compadecido do irmão.

– Não vamos falar sobre isso, vamos? Eu me meto no seu namoro com o Fred? Não.

– A Sophia precisa saber o que você sente por ela. – o caçula bufou.

– Quem disse que ela não sabe? – Ricardo falou em tom controlado, frio.

Pedro arregalou os olhos, um pouco perplexo por Sophia já saber do tanto que seu irmão gostava dela e não ter feito nada. Aliás, nada não: ela estava mudando tudo. Mudando-se; fugindo.

Saiu e deixou Ricardo ali, sozinho.

Cerca de duas horas passaram-se até que a campainha tocou. Estava um dia chuvoso, cinzento, e será que o avoado do Pedro já perdeu a chave dele…

– Sophia?

Ela estava bastante molhada. Os cílios longos piscaram apressados; nervosa, Ricardo sabia. Ela toda era tudo o que ele mais gostava de conhecer, de reconhecer.

– Posso entrar? A gente pode conversar?

Ele deu espaço, ela entrou.

– Vai lá no meu quarto, pega uma blusa minha no armário. Você deve estar molhada até os ossos. – ele ordenou.

– A gente pode conversar? – ela repetiu. – Por favor.

– Vá se trocar, tá me dando agonia ver você ficando gripada e parada aí na minha frente.

Alguns minutos depois, ela voltou com uma camisa preta com listras brancas do Corinthians:

– Pronto? Mais alguma exigência de vestuário?

Sophia era bonita, mas de uma beleza bem dela. Pele morena clara, o cabelo longo, ondulado nas pontas, escuro como os seus olhos. Um sorriso franco, até mesmo desafiador, um jeito que Ricardo sentia como sendo o único que, até aquele momento da vida dele, era o preferido dele numa mulher.

– Veio se despedir? – ele sorriu, amargo. Estralou as costas: com as horas de digitação estavam doendo.

– Não.

– Hum… ok. – ele se sentou defronte a ela no sofá. – Veio lavar a roupa suja? Explicar por que naquele dia foi embora depois de a gente transar?

– Odeio você e sua objetividade… – ela recostou-se.

– Tenho que acabar essa matéria ainda hoje, Sô, então…

– Aquilo foi maravilhoso. Desculpa fugir quase à meia-noite sem nem me despedir.

– Chegou bem em casa?

– Sim, liguei pra um Über, ele veio rápido.

Silêncio. Ela faz um coque no cabelo cheio, escuro, longo, e deixou a pele do pescoço à mostra, acendendo algo em Ricardo que o fez se levantar:

– Café?

– Sim.

Eles eram assim há…

Ela reparou na silhueta dele andando pela cozinha preparando o café. Eles tinham o mesmo tamanho aos 9 anos, mas ele definitivamente crescera mais até chegar aos 1,85 de altura. Também sempre tinha sido um cara sem rodeios, sincero. Só não tão sincero a ponto de não expressar de forma aberta o suficiente que gostava dela, e não era como melhor amiga. Uma vida inteira tendo Ricardo ao seu lado… na escola, no mesmo prédio durante anos antes de ele se mudar e sair da casa dos pais, nas mesmas festas, nos mesmos círculos de amizade. E então, naquele dia em que ela o encontrou visitando os pais dele, e acabaram chegando até o lugar em que estavam agora, beberam, cantaram rock clássico a plenos pulmões e então ele disse, com o rosto muito próximo ao seu: “te amo. Vai embora não, Sô”.

O beijo que nunca tinha acontecido finalmente veio ao mundo; roupas foram deixadas de lado; suas línguas e mãos trabalharam deliciadas e, sim, foi bom. Muito bom. Ela lembra que verdadeiramente ele a fez feliz e gemer de felicidade. Mas, depois, um caminhão de confusão e culpa foi descarregado sobre ela, e Sophia se viu correndo, ligando para um carro vir buscá-la, e chorando até dormir às quatro horas da manhã.

– Tá forte, do jeito que a gente gosta. – ele colocou a caneca na mão dela.

– Eu não vou fugir hoje, Ricardo.

– Claro que não. Mas daqui a três dias, sim. – ele tomou um gole do café.

– Eu terminei com o Fabrício.

Ele a mirou sobre a borda da xícara:

– Eu tive algo a ver com isso?

– Não. Eu tive. – ela sorriu levemente. – Como eu iria ser feliz sem sua voz ao meu ouvido dizendo que me ama?

Ele baixou os olhos…

– Mas eu pensei que…

– Eu também pensei. Pensei tudo. Mas, de tanto pensar, estaria daqui a pouco em Londres, quando eu sei que o que aconteceu não foi em vão.

Ela colocou a xícara sobre a mesa de centro e Ricardo também; ele a acolheu em seus braços, num daqueles abraços demorados em que eles sabiam, era tão profundo que poderia fundir as suas almas.

– E o que acontece agora? – ele sussurrou. – Não é nessa parte em que a música tema do filme toca e os créditos sobem?

Ela sorriu mais abertamente:

– É nessa hora em que eu digo que meu melhor amigo foi muito idiota em não dizer que gostava de mim antes, mas que eu descobri há quase uma semana uma coisa muito importante: eu não quero te deixar. Eu vou ficar.

Ricardo sorriu, tocando o rosto de Sophia com carinho. Tudo parecia simples e verdadeiro, do jeito que sempre deveria ser.