Resenha de Contos de Neil Gaiman – Especial Mês do Terror!

Oi, gente!

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Bom, hoje o Especial mês do Terror no LA traz algumas coisas que li ultimamente do mito Neil Gaiman, que, quem acompanha o blog, sabe o quanto eu adoro. Pois bem, apesar de o britânico não se enquadrar na concepção clássica de terror, seus textos são permeados de algo sobrenatural, transcendente, que eu acho que combinam bem com o tema para o mês das bruxas.

Para começar, destaco a HQ Noites sem Fim, uma publicação em que o autor trabalhou novamente com o universo de Sandman, que já tinha se tornado um fenômeno. A primeira história foi a de que mais gostei, Morte e Veneza, em que vemos a trama se desenvolvendo em dois tempos distintos: no presente, um homem tenta reencontrar a moça misteriosa que viu quando criança nas ruínas de uma edificação antiga em uma ilha italiana; no passado, um conde extravagante que tentou vencer o tempo promove orgias em seu castelo. A fascinante Morte, que a tudo conhece, conduz os dois em suas trajetórias.

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Do livro Coisas Frágeis, li os contos Um estudo em Esmeralda e Golias.

neil coisas frágeisUm estudo em Esmeralda, como Gaiman fala no prefácio, foi escrito para a antologia que meu amigo Michael Reaves editou com John Pelan, Shadows Over Baker Street. O pedido de Michael dizia: “Quero uma história que junte Sherlock Holmes e o mundo de H. P. Lovecraft”. Aceitei escrever uma narrativa, mas achei a premissa um tanto quanto desanimadora. Afinal, o mundo de Sherlock Holmes é tão completamente racional e preocupado com as soluções, enquanto as criações ficcionais de Lovecraft são profunda e totalmente irracionais, e nelas os mistérios são vitais para manter a humanidade sã. Se eu fosse contar uma história que combinasse esses dois elementos, teria que ser hábil o suficiente para fazer justiça tanto a Lovecraft como ao universo de Sir Arthur Conan Doyle.”

O conto é uma mergulho na Londres suja, obscura e misteriosa do fim do século XIX, uma história de detetive que segue a linha de Sherlock Holmes e que envolve a estranha morte de um herdeiro real europeu. Mas o racionalismo e a lógica das típicas tramas de detetive se revezam com a personalidade quase mística do detetive e com a solução “sem solução” que te pega de surpresa no final.

Acredito que seja a imensidão. O tamanho das coisas lá embaixo. A escuridão dos sonhos.

Mas estou devaneando. Perdoem-me. Não sou um literato.

Golias foi escrito por Gaiman como um pedido antes de lançarem o filme Matrix; a história deveria ter os mesmos elementos que já conhecemos da trama de Neo.

É um conto com todas as características da “pegada” gaimaniana: um ambiente normal, um rapaz com uma vida normal, entediante, torna-se de repente algo mágico, surreal, sacudindo sua existência e te jogando em um contexto completamente perturbador e novo. O protagonista, que possui este nome por ser muito alto, quase um gigante, descobre que toda a sua vida fez parte de um experimento e que ele é uma máquina produzida para destruir ETS que querem dissipar a Terra; o que ele pensa que são anos. Na verdade, não passam de poucos minutos, e as pessoas que ele conheceu não têm noção de que são meros fantoches em uma peça que imita a vida real. Muito bom!

No livro Fumaça e Espelhos, no prefácio o britânico diz: “(A fumaça borra os contornos das neil fumaca_e_espelhoscoisas.)Histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós as usamos para explicar como funciona ou não o mundo. Tal qual espelhos, elas nos preparam para os dias que virão. Afastam nossa atenção das coisas que se ocultam nas trevas.” É um livro de contos, mas mais fragmentados que Coisas Frágeis; também traz poemas e alguns textos mais soltos e pequenos. Dele, li o conto O Presente de Casamento, em que Gordon e Belinda acabaram de se casar e ainda estão naquele clima pós lua-de-mel quando vão agradecer os presentes recebidos. Notam, entre todas as coisas, uma carta que não tem remetente que descreve claramente toda a festa de casamento, nos mínimos detalhes. Até aí, tudo bem, mas, com o passar dos anos, eles vão vez por outra olhar o misterioso presente e se espantam que a cada olhada ele vai mudando: a carta mostra desgraças impensáveis; eles vivem com conforto, felicidade, enquanto os seus “avatares” da carta sofrem todo tipo de coisa. É triste no final, vou logo avisando… No conto Cavalaria o mundo real chocando-se com o sobrenatural é novamente tema: desta vez, uma senhora pacata e viúva, que gosta de comprar quinquilharias em um brechó, acaba comprando por acaso o Santo Graal e um cavaleiro arturiano aparece em sua casa disposto a convencê-la a dá-lo para ele.

No conto O Preço, vi uma certa intertextualidade com o conto O Gato Preto, de Edgar Alan Poe, até porque o gato que aparece na propriedade do narrador também é negro e misterioso. Após várias vezes aparecer extremamente machucado, o dono do animal vigia durante a noite os arredores de casa para ver como o gato andava se machucando até que descobre que ele estava assim por estar guardando a sua casa e a sua família, defendendo-os de nada menos que o Diabo (sim, senti um medinho no final rs).

A ponte do Troll foi um dos melhores contos deste livro, na minha opinião. Um menino descobre uma estranha estrada perto de sua casa e chega a uma ponte, onde embaixo está um troll que quer consumir a sua vida.

— Eu ouvi você, Jack — sussurrou numa voz que parecia ser o vento. — Ouvi você arrastando os pés na minha ponte. Agora vou comer sua vida.

Eu tinha só sete anos, mas, como era dia, não me lembro de ter ficado assustado.

É bom que sejam as crianças a enfrentar os elementos de um conto de fadas — elas estão bem preparadas para lidar com isso […].

No final, vemos como um troll nasce, e o que às vezes a gente perde em não aproveitar a vida da melhor forma possível…

O último que li do livro (que tem muitos outros contos, pessoal), foi O lago dos peixes dourados e outras histórias, em que um escritor inglês vai para Hollywood adaptar seu livro de maior sucesso em roteiro de filme e fica hospedado em um hotel, onde faz amizade com o velho zelador. Ele o apresenta a um lago de peixes fascinantes e lhe conta histórias de estrelas de cinema do passado, em especial de June Lincoln. A adoração do zelador por ela acabar impregnando também o escritor, que passa a sonhar com ela misturando-a ao contexto de um conto surreal com o qual está sonhando. Também é muito bom!

Enfim, nunca tinha lido antes os contos do autor e, mesmo após a resenha sair, eu continuarei lendo. São histórias menos coesas que os romances do autor, mas há todo o fascínio e a qualidade de escrever fácil mas de tocar tão profundamente na alma humana que é impossível não sentir que tudo isso também garante a excelência sobrenatural de Neil Gaiman.

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Resenha de Amar, Verbo Intransitivo

Oi, gente!

Sim, eu dei uma daquelas minhas sumidas ~básicas neste mês. Motivo: provas, provas e mais provas. Tanto para elaborar como para corrigir, o tempo está sendo muito curto e milhões de testes caíram sob a minha responsabilidade (vida de professora, amores).

Pois bem, mesmo assim, eu terminei de ler bravamente o livro Amar, verbo intransitivo, de Mario de Andrade. Para vocês terem noção da correria, faz um tempão que li e não conseguia fazer a resenha!

Mas, aqui está a linda!

Amar, verbo intransitivo, é um livro da chamada 1ª Fase Modernista, ou seja, pode esperar dele experimentalismos estéticos e linguísticos, que era o que os modernistas desta fase buscavam.

Ele é de autoria de Mario de Andrade, e foi lançado em 1927, causando um choque na sociedade burguesa ao tratar de um assunto polêmico: Elza, uma alemã que estava morando no Brasil, fora contratada por um rico burguês e cafeicultor como governanta. Na verdade, porém, a sua função na casa será a de iniciar sexualmente o filho do ricaço Sousa Costa, Carlos, um rapaz adolescente.

A protagonista passa a ser tratada como Fräulen e a dar lições de Alemão para as crianças da casa, com dedicação especial ao garoto, óbvio, devido ao contrato que firmara com o pai dele.

De início, Carlos não cai na sedução da governanta, e isso gera muitos embates filosóficos e psicológicos na alma da Fräulen. Aliás, muitas vezes o livro faz essa imersão no perfil psicológico dela, fazendo uma comparação com o modo alemão dela de enxergar o mundo, as suas aspirações e a forma como encarava aquele serviço “especializado”.

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A linguagem do livro é um dado à parte, pois Mario buscou aproximá-la do coloquial, reproduzindo falas e expressões da época para que os diálogos e até a narração soassem bem naturais.

Outra coisa que sempre me chamava a atenção no título deste livro era o “intransitivo”. Gramaticalmente, amar é verbo transitivo direto, o que denota o fato de que você obrigatoriamente precisa de algo ou alguém para amar. No caso de Fräulen, ela simplesmente ensina a amar, a sentir, a ter o sentimento e transformá-lo em ação. O que Carlos e qualquer outro pupilo faria a partir disso já não era mais com ela.

Em um dado momento, claro que o menino se interessa por ela e eles passam a ter encontros apaixonados e furtivos. O desenlace é previsível: quando a missão dela está cumprida, ir embora se faz necessário, para que o menino continue seu percurso nas trilhas do amor sozinho.

Fräulen é ambígua, sendo forte e amorosa, seca e doce quando preciso. Mostra as contradições de alguém que inicia a vida sexual de adolescentes ricos ( prevenção tomada pelos pais dos mesmos para que os filhos não caiam nas garras de prostitutas inescrupulosas) de forma paga, mas acredita que, com todo o dinheiro junto, ainda poderá ser feliz e ter uma vida confortável na sua Alemanha.

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E se Pedro Bala vivesse nos dias atuais?

Aqui no LA, verificando todas as estatísticas do blog, percebi que o post mais lido é a resenha sobre o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado. Pensando nisso, como o livro ainda é tão atual, pensei e analisei um pouco mais a fundo a problemática apresentada nele e fiz uma reflexão: como seria a vida de Pedro Bala e do seu bando se vivessem nesta época contemporânea, em meio a essa discussão sobre redução da maioridade penal?

meninos de ruaPedro Bala é o protagonista de uma das obras mais conhecidas e aclamadas de Jorge Amado: Capitães da Areia. As peripécias dos meninos de rua em Salvador, na década de 1930, permanecem atuais em seu núcleo, já que a marginalidade ainda atinge em níveis alarmantes a juventude do país.

O livro é considerado um dos maiores exemplos da fase “socialista” do escritor baiano, quando seus ideais comunistas apareciam com muita ênfase em sua literatura; Jorge praticava o que os estudiosos chamam de “bildungsroman”, o romance de formação, aquele em que acompanhamos o crescimento moral e psicológico dos personagens.

Pedro é o líder do bando, que exerce fascínio, respeito e admiração entre os meninos que praticamente não conhecem nenhuma lei além a da sobrevivência. Acompanhamos os “capitães” em suas aventuras, desavenças, tristezas, alegrias, amores. Sorrimos e choramos com eles. Como não se sentir embevecido com o amor de Pedro e Dora? Como não chorar com o destino de Sem Pernas? Como não entender o encantamento daqueles garotos que nunca tiveram nenhuma alegria genuína quando eles andam pela primeira vez em um carrossel?

Muitos críticos dizem que Jorge Amado nesta fase romantizava o cenário que gostava de retratar. Jorge tinha predileção pelas classes marginalizadas, desassistidas, os meninos de rua, as prostitutas, os malandros, os pescadores, os operários. A estrutura é até romântica mesmo, já que há evidentemente uma simpatia por parte do autor em relação aos garotos que estavam por própria conta, sem pais ou Estado para defendê-los; são os oprimidos, que mesmo sendo autores de crimes, estão do lado “do bem” da história, enquanto a polícia, o restante da sociedade que os exclui, estão do lado “do mal”.                                                             meninos de rua2

O maniqueísmo pode turvar um pouco a percepção que temos hoje em dia de tal período da escrita de Amado, mas não se pode negar que, pela primeira vez, se tocava em um assunto tão contundente da sociedade, que até hoje ainda se faz presente.

É preciso ressaltar que falar das nossas falhas sociais, denunciar, pôr mesmo o dedo na ferida era o padrão estabelecido pela geração de escritores da qual Jorge fez parte, que na definição literária brasileira chamamos de 2ª Geração Modernista. Pedro Bala faz parte de um grupo maior do que os do Capitães: ele está ali ao lado de Fabiano, de seus filhos, de  sinhá Vitória e da cachorra Baleia de Vidas Secas, de Graciliano Ramos; de Chico Bento e de sua família, de O Quinze, de Rachel de Queiroz; e de outros mais representantes de uma parcela da população brasileira que, no presente, mesmo tendo sido alcançada pelo Bolsa-Família, ainda sofre com o preconceito, com a seca, com a miséria, com a falta de políticas públicas capazes de sanar anos de histórica opressão.

meninosderua3Porém, Pedro Bala é um exemplar diferente: ele não se deixa vitimizar, ao contrário,  é o líder do grupo, tem respeito de todos, não se curva perante as autoridades. Sua impetuosidade é em partes refreada por Dora, mas quando se torna adulto, Pedro percebe que seu poder de liderança pode ir além dos Capitães, tornando-se um nome conhecido do movimento sindical dos estivadores do porto, tal como seu pai, como vem a saber.

O final do livro acena com o desfecho da história do garoto, em que ele é retratado como um perseguido político de uma ditadura por sua busca pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores, bem ao gosto socialista que guiava a estilística de Amado na época, como já foi dito, mas… e se Pedro Bala vivesse hoje na nossa sociedade, liderando um bando de crianças “ladronas”, como está registrado no livro, será que ele se tornaria esse sindicalista em busca de visibilidade política para um grupo marginalizado?

A pergunta me deixa curiosa, já que estamos vivemos um debate intenso sobre a redução da maioridade penal, colocando em pauta a responsabilidade dos jovens quando agem criminosamente. Desde a época de Capitães da Areia existia a truculência policial, a perseguição aos meninos de rua, crianças e jovens que não tinham casa, pais, atenção, mas tinham fome, dor, paixão e amargura de sobra, combustíveis essenciais para os fazerem desafiar as leis e buscar caminhos alternativos, como o roubo, na busca pela sobrevivência.

A questão que se observa atualmente é que não é apenas o fator “sobrevivência” que entra na equação. Se para Pedro e seu grupo ter o que comer e onde dormir eram as necessidades básicas, os jovens de hoje são atraídos pela vida fácil e atrativa do tráfico, por exemplo. Quantos jovens não são recrutados para o mundo das drogas tendo em vista a ostentação, o poder, o acesso a coisas às quais eles certamente não teriam se não fosse pelo dinheiro fácil das drogas?

Quem sabe o próprio Pedro Bala, com sua natural predisposição à liderança, não seria um traficante que logo ascenderia ao comando de uma favela ( pensamento meio Cidade de Deus, mas não deixa de ser verdade)?

A verdade, é que a nossa realidade não dá mais para ser romantizada como aquela em que Jorge Amado vivia na década de 1930. Se antes os valores comunistas eram difundidos, esses meninos e meninas que vivem nas periferias das nossas cidades hoje em dia não têm perspectivas, apenas querem um retorno rápido e fácil dos seus desejos. Claro que isso é generalizador demais; há aspectos vários a serem levados em conta. O Brasil não investe na juventude ainda da forma que dê qualidade de vida suficiente para ela não se ver tentada a enveredar pela criminalidade.

Se nós, em 2015, estamos debatendo se vale a pena ou não diminuir a idade penal de 18 para 16 anos, é porque ainda nos incomodamos com a marginalidade das crianças e adolescentes como na época de Pedro Bala e seu bando, mas não vemos que a estrutura social deve melhorar para que eles tenham oportunidades. Não adianta bater, diminuir a idade, prender, segregar, pois a parcela atingida sempre é a mesma que é perseguida e excluída historicamente. Alimentar o ódio com mais ódio nem sempre pode resultar em um líder como Pedro, mas em mais crime, mais violência, mais falta de solução.