Reflexão sobre o nosso tempo

Que País é Esse? - Legião Urbana
via Renato Russo de A a Z

“I

Esse é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se

na pedra.” ( Nosso Tempo, Carlos Drummond de Andrade)

 

Possivelmente, esta é a maior crise política que os mais jovens devem ter visto na vida. Eu, que fiz 30 nesse ano, não me lembro de alguma vez ter tanto medo de uma revolução, de um golpe, de uma volta da ditadura como agora. Estamos andando sob uma linha tão tênue que o medo não está equivocado: ele parece vislumbrar o futuro e o passado ao mesmo tempo, nos mostrando o que já houve e o que poderá vir acontecer se certas coisas não forem freadas agora.

Não me parece haver forma melhor de pensar o que vivemos hoje que ler os dois primeiros versos deste poema fenomenal:

Esse é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Há uma polarização que já está beirando ao irracional no Brasil de hoje. E o que você quer pro seu país? Eu não quero um país de estagnação econômica, que retroceda nas políticas públicas, que perca tudo o que já avançou na cidadania. Faço parte de uma geração que não teve seu pensamento cerceado, e quero que isso continue.

Acima de qualquer bandeira partidária, a democracia precisa ser preservada, e, me desculpe quem acha isso, mas não é “endeusando” um juiz que grampeou ilegalmente, ao que parece, a própria presidente, que as coisas terão solução. Também aviso que, se você saiu às ruas para xingar ancorado na misoginia a mulher que governa o país, provavelmente este texto não é para sua leitura.

Este tempo que o Brasil vive é de tensão, mas não é para se levar como se fossem dois times disputando uma final. Tudo é muito complexo, e ler, informar-se, antes de sair falando qualquer bobagem é melhor que pagar mico, seja achando que comunistas ameaçam nossa segurança, seja achando que, quando corresponde aos seus interesses, a lei pode ser driblada. Por isso, que todos estejamos atentos. No fundo, a gente precisa da mesma coisa, que é de honestidade.

Inspiremo-nos nos exemplos que temos na nossa literatura:

memórias do cárcere

 

Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos foi preso em março de 1936, acusado de ligação com o Partido Comunista. Prisão sem processo, mas que não evitou a deportação do acusado, num porão de navio, para o Rio, onde permaneceu encarcerado. Foi demitido do cargo de Diretor da Instrução Pública e levado a diversos presídios, até Janeiro de 1937, quando foi libertado. Dessa experiência resultou a obra Memórias do Cárcere, publicada postumamente em 1953. A obra não é o relato puro e simples do sofrimento e humilhações do homem Graciliano Ramos; é a análise da prepotência que marcou a ditadura Vargas e que, em última análise, marca qualquer ditadura. É um dos depoimentos mais tensos da literatura brasileira. ( http://www.passeiweb.com/estudos/livros/memorias_do_carcere)
O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova.
Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra liberdade e por ela briguei.... Frase de Oswald de Andrade.

Jorge Amado:

Eu continuo firmemente pensando em modificar o mundo e acho que a literatura tem uma grande importância.

 

florais I ( Cacaso)

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

  Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Para encerrar, mais Drummond:

Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Anúncios

Um comentário sobre “Reflexão sobre o nosso tempo

  1. Pingback: TAG: 25 fatos literários sobre mim | Devaneadora de Ideias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s