o que desejamos, como desejamos

A forma como desejamos algo, o que desejamos, podem nos moldar? Tomar cuidado até com o que poderia ser uma boa para nós nunca é demais, a exemplo do que vemos no conto O Bilhete Premiado, de Anton Tchekhov.

o que vc deseja

Fonte: o que desejamos, como desejamos

Muitas vezes, queremos algo que não temos e que nunca sequer experimentamos com uma força brutal. Queremos porque vimos os outros terem, serem, viverem, experimentarem, desfrutarem. Queremos e pronto, precisamos daquilo, nos empenhamos… poucos somos os que realmente refletem sobre a necessidade, a validade daquele desejo. Note-se: na sociedade em que vivemos, somos impelidos ao consumismo. Estamos sempre querendo, compramos algo já pensando em outra coisa, afinal, há tantas opções! Mas, e quando isso vai para além da compra material, quando se estabelecem padrões sociais, como fica?

Sempre que penso nestas coisas, me lembro de um conto de um autor russo maravilhoso chamado Anton Tchekhov, “O bilhete premiado”, em que, por uns instantes, toda a cobiça humana e a mesquinhez vêm à tona numa forma avassaladora. Um casal, após o jantar, confere o resultado do bilhete de loteria que tinham comprado no jornal. O marido vai olhar e dá de cara com o número da série do tal bilhete; chama a mulher e logo as mil e uma conjecturas passam a se desenrolar nas cabeças deles sobre o que fariam se tivessem o dinheiro do prêmio:

“E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranquilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo!” O marido vai pensando na propriedade que compraria no campo, nas longas horas sem fazer nada, na comida, na mordomia… depois, por que não?, iria ao exterior…

É aí que ele começa a reparar que a mulher não “combinaria” com a nova vida:

“E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. […] E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.”

O que eu creio seja o mais fascinante neste conto é a nossa capacidade em fazer planos, desejar coisas antes impossíveis, com a maior facilidade, e, além disso, de mudar até de caráter diante de certa circunstância. No caso, só a possibilidade de se ver rico mudou drasticamente o pensamento do homem: a mulher feia, sem graça, mesmo tendo comprado o bilhete, não o merecia.

Essa forma de achar que merecemos algo que, de verdade, nunca nos pertenceria de forma genuína, tal qual este homem, no fundo uma criatura rude, queria uma vida de dândi, é muito comum. Queremos uma roupa, mesmo sabendo que não irá cair bem; queremos tal carro, ir à tal festa por será num lugar “da moda”, e quantas pessoas não idealizam o parceiro ideal baseando na aparências, como este homem do conto? A mulher também ressente-se do marido em silêncio, em seu pensamento:

“Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas ideias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho. “É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

Muitas vezes, em nome do ter colocamos o ser em detrimento. O casal caiu em um abismo apenas com a possibilidade de riqueza! No fim, eles não ganham. Mas a ambição e a discórdia já estavam tão enraizadas que o presente já tinha sido envenenado:

“– Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. – Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.”

Nunca é demais se lembrar da velha máxima: “cuidado com o que deseja.” E mais: cuidado como deseja, e deseje correto.

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