E se Pedro Bala vivesse nos dias atuais?

Aqui no LA, verificando todas as estatísticas do blog, percebi que o post mais lido é a resenha sobre o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado. Pensando nisso, como o livro ainda é tão atual, pensei e analisei um pouco mais a fundo a problemática apresentada nele e fiz uma reflexão: como seria a vida de Pedro Bala e do seu bando se vivessem nesta época contemporânea, em meio a essa discussão sobre redução da maioridade penal?

meninos de ruaPedro Bala é o protagonista de uma das obras mais conhecidas e aclamadas de Jorge Amado: Capitães da Areia. As peripécias dos meninos de rua em Salvador, na década de 1930, permanecem atuais em seu núcleo, já que a marginalidade ainda atinge em níveis alarmantes a juventude do país.

O livro é considerado um dos maiores exemplos da fase “socialista” do escritor baiano, quando seus ideais comunistas apareciam com muita ênfase em sua literatura; Jorge praticava o que os estudiosos chamam de “bildungsroman”, o romance de formação, aquele em que acompanhamos o crescimento moral e psicológico dos personagens.

Pedro é o líder do bando, que exerce fascínio, respeito e admiração entre os meninos que praticamente não conhecem nenhuma lei além a da sobrevivência. Acompanhamos os “capitães” em suas aventuras, desavenças, tristezas, alegrias, amores. Sorrimos e choramos com eles. Como não se sentir embevecido com o amor de Pedro e Dora? Como não chorar com o destino de Sem Pernas? Como não entender o encantamento daqueles garotos que nunca tiveram nenhuma alegria genuína quando eles andam pela primeira vez em um carrossel?

Muitos críticos dizem que Jorge Amado nesta fase romantizava o cenário que gostava de retratar. Jorge tinha predileção pelas classes marginalizadas, desassistidas, os meninos de rua, as prostitutas, os malandros, os pescadores, os operários. A estrutura é até romântica mesmo, já que há evidentemente uma simpatia por parte do autor em relação aos garotos que estavam por própria conta, sem pais ou Estado para defendê-los; são os oprimidos, que mesmo sendo autores de crimes, estão do lado “do bem” da história, enquanto a polícia, o restante da sociedade que os exclui, estão do lado “do mal”.                                                             meninos de rua2

O maniqueísmo pode turvar um pouco a percepção que temos hoje em dia de tal período da escrita de Amado, mas não se pode negar que, pela primeira vez, se tocava em um assunto tão contundente da sociedade, que até hoje ainda se faz presente.

É preciso ressaltar que falar das nossas falhas sociais, denunciar, pôr mesmo o dedo na ferida era o padrão estabelecido pela geração de escritores da qual Jorge fez parte, que na definição literária brasileira chamamos de 2ª Geração Modernista. Pedro Bala faz parte de um grupo maior do que os do Capitães: ele está ali ao lado de Fabiano, de seus filhos, de  sinhá Vitória e da cachorra Baleia de Vidas Secas, de Graciliano Ramos; de Chico Bento e de sua família, de O Quinze, de Rachel de Queiroz; e de outros mais representantes de uma parcela da população brasileira que, no presente, mesmo tendo sido alcançada pelo Bolsa-Família, ainda sofre com o preconceito, com a seca, com a miséria, com a falta de políticas públicas capazes de sanar anos de histórica opressão.

meninosderua3Porém, Pedro Bala é um exemplar diferente: ele não se deixa vitimizar, ao contrário,  é o líder do grupo, tem respeito de todos, não se curva perante as autoridades. Sua impetuosidade é em partes refreada por Dora, mas quando se torna adulto, Pedro percebe que seu poder de liderança pode ir além dos Capitães, tornando-se um nome conhecido do movimento sindical dos estivadores do porto, tal como seu pai, como vem a saber.

O final do livro acena com o desfecho da história do garoto, em que ele é retratado como um perseguido político de uma ditadura por sua busca pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores, bem ao gosto socialista que guiava a estilística de Amado na época, como já foi dito, mas… e se Pedro Bala vivesse hoje na nossa sociedade, liderando um bando de crianças “ladronas”, como está registrado no livro, será que ele se tornaria esse sindicalista em busca de visibilidade política para um grupo marginalizado?

A pergunta me deixa curiosa, já que estamos vivemos um debate intenso sobre a redução da maioridade penal, colocando em pauta a responsabilidade dos jovens quando agem criminosamente. Desde a época de Capitães da Areia existia a truculência policial, a perseguição aos meninos de rua, crianças e jovens que não tinham casa, pais, atenção, mas tinham fome, dor, paixão e amargura de sobra, combustíveis essenciais para os fazerem desafiar as leis e buscar caminhos alternativos, como o roubo, na busca pela sobrevivência.

A questão que se observa atualmente é que não é apenas o fator “sobrevivência” que entra na equação. Se para Pedro e seu grupo ter o que comer e onde dormir eram as necessidades básicas, os jovens de hoje são atraídos pela vida fácil e atrativa do tráfico, por exemplo. Quantos jovens não são recrutados para o mundo das drogas tendo em vista a ostentação, o poder, o acesso a coisas às quais eles certamente não teriam se não fosse pelo dinheiro fácil das drogas?

Quem sabe o próprio Pedro Bala, com sua natural predisposição à liderança, não seria um traficante que logo ascenderia ao comando de uma favela ( pensamento meio Cidade de Deus, mas não deixa de ser verdade)?

A verdade, é que a nossa realidade não dá mais para ser romantizada como aquela em que Jorge Amado vivia na década de 1930. Se antes os valores comunistas eram difundidos, esses meninos e meninas que vivem nas periferias das nossas cidades hoje em dia não têm perspectivas, apenas querem um retorno rápido e fácil dos seus desejos. Claro que isso é generalizador demais; há aspectos vários a serem levados em conta. O Brasil não investe na juventude ainda da forma que dê qualidade de vida suficiente para ela não se ver tentada a enveredar pela criminalidade.

Se nós, em 2015, estamos debatendo se vale a pena ou não diminuir a idade penal de 18 para 16 anos, é porque ainda nos incomodamos com a marginalidade das crianças e adolescentes como na época de Pedro Bala e seu bando, mas não vemos que a estrutura social deve melhorar para que eles tenham oportunidades. Não adianta bater, diminuir a idade, prender, segregar, pois a parcela atingida sempre é a mesma que é perseguida e excluída historicamente. Alimentar o ódio com mais ódio nem sempre pode resultar em um líder como Pedro, mas em mais crime, mais violência, mais falta de solução.

 

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6 comentários sobre “E se Pedro Bala vivesse nos dias atuais?

  1. Gostei das relações do texto. Pra pensar, cronicamente…
    Um outro título para a continuação do diálogo da pergunta poderia ser ‘Por que Pedro Bala surgiria nos dias atuais?’

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  2. Ai, Karla, que lindo o post e a reflexão!
    Super necessário falar dos menores, da violência, da situação das prisões brasileiras, da segurança pública, da legalização das drogas…
    Fora que Pedro&Dora e Carrossel são ❤ ❤ ❤ !!!!!!!!!
    Adorei a foto dos meninos de rua, achei muito forte!
    Beijoooooo!

    Curtido por 1 pessoa

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