Resenha de Incidente em Antares

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Um dos meus escritores favoritos é Erico Veríssimo. Algo nele me encanta de uma forma que não sei definir bem, talvez uma simpatia com suas palavras sempre tão bem colocadas, descrições tão precisas, enfim, um estilo que ele domina e que eu adoro.

Incidente em Antares foi um dos últimos romances que o autor escreveu, e é uma grande crítica alegórica do momento em que o Brasil vivia ( o momento político conturbado que desembocou no Golpe Militar).

Antares é uma cidadezinha que fica no interior do Rio Grande de Sul, e, segundo o narrador, “[…] não consta nos mapas, apenas São Borja é digna de nota, nas paragens do Alto Uruguai. Mas, há documentos comprovadores de sua existência. Seus ilustres moradores têm repetidamente se manifestado sobre a injustiça. O prefeito, os vereadores e até o padre se dirigiram ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para protestar contra a acintosa omissão.” Lá vivem duas famílias rivais, as mais ricas do lugar e que polarizam as influências: os Vacarianos e os Campolargos. Quem leu pelo menos algum livro de O tempo e o Vento, do mesmo autor, vai notar que a concorrência entre estas famílias lembra o que havia entre os Terra Cambará e a família Amaral.

Pois bem, Erico, este incrível conhecedor da história e da geografia do RS, cria uma cidadezinha tipicamente gaúcha, com todas as figuras mais representativas deste tipo de sociedade com uma maestria desconcertante. O romance é desenvolvido em duas partes: a primeira, Antares, trata exclusivamente de nos mostrar a evolução histórica do lugar e das famílias rivais, atravessando séculos e gerações. A arte do escritor de urdir de forma tão desenvolta a história real do país com a sua trama é algo que realmente me empolga! Enfim, alguns podem achar que esta parte é “arrastada”, mas, para quem, assim como eu, acha saborosa a técnica de Veríssimo neste quesito, é puro deleite.

Pois bem, a segunda parte, O Incidente, é onde realmente “o caldo entorna”. Em 11 de dezembro de 1963 eclode uma greve geral em Antares e os coveiros aderem a ela. Até aí, nada muito surpreendente, a não por que, por circunstânciasincidente variadas, sete pessoas totalmente diferentes entre si morrem e ficam sem sepultamento: D. Quitéria, matriarca dos Campolargo que morreu de enfarto; Dr. Cícero Branco, advogado envolvido em falcatruas com as duas famílias poderosas; o sapateiro Barcelona; o maestro Menandro, que se suicidou; a velha prostituta Erotildes, vítima de descaso médico; João Paz, agitador político morto depois de ter sido torturado pela polícia; e, por fim, o bêbado Pudim de Cachaça, assassinado pela mulher, cansada de suas bebedeiras e agressões.(http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/incidente-em-antares.html).

Daí, o que acontece? Os mortos simplesmente saem dos seus caixões, indignados, e vão protestar no coreto da cidade!

As personagens são mortos-vivos da sociedade brasileira, simbolizando tanto os vivos que se fingem de mortos diante dos fatos inacreditáveis que presenciam, como o golpe civil-militar de 1964, quanto os mortos e enterrados que, no entanto, continuam a agir e a mandar, como a ação dos líderes locais, de um autoritarismo que se mostra incompatível com as conquistas da liberdade humana. (http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/incidente-em-antares.html).

Cena da minissérie homônima transmitida pela Globo.
Cena da minissérie homônima transmitida pela Globo.

Os sete dirigem-se ao centro de Antares, e todos ficam pasmados por aquilo estar acontecendo. E mais: muita gente começa a temer os segredos sabidos pelos mortos, que, já que não têm mesmo o que perder, “jogam no ventilador” tudo o que sabem: casos de corrupção, adultério, falcatruas, roubos, e até denúncia de tortura ( lembrem-se, vivíamos a ditadura, e isso mostra-se muito corajoso por parte do autor).

Antares é um microcosmo, enfim, que representa o país, até mesmo o continente, que vivia sob a opressão de governos militares e ditatoriais. Vale ressaltar que Erico, um escritor da chamada “Segunda Geração Modernista”, manteve os traços realísticos típicos dessa escola ao mesmo tempo em que enveredou pelo fantástico e alegórico. Nesse livro ele não poupa críticas e ironia; um dos momentos mais engraçados dele, na minha opinião, é quando os personagens debatem sobre escritores do Brasil que estão fazendo sucesso e começam a falar mal dele mesmo, Erico Veríssimo, e de Jorge Amado ( que deve ter rido muito com a “homenagem” de Erico, algo que ele mesmo poderia ter feito em seus livros).

Se você nunca leu nada do autor, um conselho: leia, não à toa, apesar de toda a humildade com que ele se referia a sua escrita, Erico Veríssimo é um dos nossos maiores escritores.

erico ver

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4 comentários sobre “Resenha de Incidente em Antares

  1. Karlaaaa!!!
    Eu sou DOIDA pra ler Érico Veríssimo!!! Mas cadê coragem de ler esse box gigante que já tenho em casa (“O tempo e o vento”)?!?! Aiai…
    Vc já leu todos?
    Eu AMEI essa resenha, talvez a que me deixou mais curiosa, quero muito ler esse livro agora! 😀
    Beijooos!

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    • Não li tds, mas pretendo. Eu tenho O Tempo e o Vento tomo I ( com Ana terra e Um certo capitão Rodrigo). Mas amo o Erico demais, dele já li estes, Incidente, Olhai os lírios do campo… ele é maravilhoso, um dos meus maiores amores literários! Incidente tem td a ver com o que vc gosta msm rsrsrs bjãooo

      Curtido por 1 pessoa

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