Especial Mês do Terror: Contos Brasileiros Sobrenaturais

Oi, gente!

Hoje é o dia em que o Livro Arbítrio chega ao seu penúltimo post sobre o mês do terror falando de contos que são brazucas com essa temática. Eu tive ideia de falar sobre cinco contos, mas acabei aumentando a conta rsrsrs… então, vamos lá!

  1. Venha ver o pôr-do-sol ( Lígia Fagundes Teles)

venha ver o pôr do sol

Este é meu conto preferido da Lígia,  e um dos mais conhecidos na nossa literatura no quesito “dar frio na barriga da gente”. Com um ar meio Edgar Alan Poe, conta como um ex-casal se reencontra venha ver o pôr do sol 2em um cemitério antigo para reparar antigas diferenças. Sem nem perceber, o leitor e a moça a quem o rapaz convida são atraídos para uma armadilha estranha, cruel, maquiavélica…

 – Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.

  1. Dizem que os cães veem coisas ( Moreira Campos) dizem que  os caes 2

Este grande escritor cearense é um dos meus contistas favoritos, disparadamente. Com seu estilo enxuto e sóbrio, nesse Dizem que os caesconto temos a presença sobrenatural da Morte     ( isso mesmo, da própria) que surge em um cenário aparentemente incomum para tal ocorrência: um churrasco à beira da piscina em um dia de sol.

Ela chegou diáfana, transparente, no vestido branco que lhe descia até os pés calçados pelas ricas sandálias de pluma. Ninguém lhe ouviu os passos. Sentou-se à beira da grande piscina, cruzando as pernas longas. Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara. Moldada em gesso? Apenas uma presença, porque pousou como uma sombra. Mas por um fragmento de tempo, um quase nada, reinou entre todos um silêncio largo, que se estendeu pelo vasto terreno murado da mansão ensombrada pelas árvores, dominou a enorme piscina e emudeceu as próprias crianças pajeadas pelas babás de aventais bordados, e vejam que as crianças são indóceis. Um presságio.

  1. Passeio Noturno I e II (Rubem Fonseca)

 64-contos-de-rubem-fonsecaDois contos que têm o mesmo protagonista e que trazem a marca indiscutível do mestre Rubem Fonseca, eles dão medo não pela ocorrência de algo sobrenatural, mas pelos atos psicopatas de um cara aparentemente “acima de qualquer suspeita”.

Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia.

 
 4.Três Contos Fantásticos de Machado de  Assis  três contos fantásticos machado de assis

 – Sem Olhos

Em meio a uma reunião descontraída entre amigos, após o jantar, a conversa recaiu sobre o tema “fantasmas”. Havia quem acreditasse, havia quem não; para provar o ponto de vista de que eles existem sim, o desembargador Cruz conta para os amigos um fato que lhe ocorrera quando ainda era jovem, em que uma fantasma o fizera duvidar do que era delírio e o que era realidade.

 mulher-fantasma_conto machado“- O que eu vi foi há muitos anos, disse ele; ainda assim conservo a memória fresca do que me aconteceu. Não sei se poderia ir até o fim; e desde já estou certo de que vou passar uma triste noite…”

 

-A Chinela Turca

Neste conto, um jovem está ansioso para ir a um baile cortejar a moça por quem está apaixonado, mas se vê impedido graças à visita inoportuna de um senhor conhecido. Para não fazer desfeita, porque o tal homem era muito amigo da família da moça, o rapaz aceita ler a peça teatral que este lhe trouxera para avaliar. O que era para ser rápido acaba em uma situação enfadonha, e mais que isso, numa jogada genial de Machado misturando uma história dentro da outra, fazendo até nós, leitores, confundirmos, assim como o protagonista, o que foi real e o que foi fantasia.

Ouvindo aquela alusão à dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival suplantado. Ou a alusão seria casual e estranha à aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.

– Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a polícia…

– Nós não somos da polícia, interrompeu friamente o homem magro.”

 – Um Esqueleto

contos de machado sobrenaturais

Um outro conto machadiano que se baseia muito no jogo entre o real e o que pode ter sido fantasiado pelos personagens, traz a narração de um rapaz para um grupo de amigos em uma noite chuvosa. Ele relata um caso sombrio que vivera na sua cidade. Um médico, amigo seu, tinha o mórbido hábito de conviver com o esqueleto de sua primeira mulher, a quem matara por ciúmes. O final é um pouco desconcertante, e eu não vou adiantar!

Eu não dizia nada, e o doutor continuou a falar assim durante vinte minutos. A tarde caíra de todo; e a ideia da noite e do esqueleto que ali estava a poucos passos de nós, e mais ainda as maneiras singulares que nesse dia, mais do que nos outros, mostrava o meu bom mestre, tudo isso me levou a  despedir-me dele e a retirar-me para casa.”

Gostaram das dicas? No próximo post que fechará o especial, nós teremos a análise de três contos do mestre do gênero terror, Edgar Alan Poe, não percam!

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4 comentários sobre “Especial Mês do Terror: Contos Brasileiros Sobrenaturais

  1. Karla!!!
    Então, como eu já disse (acho), não sou muito fã de contos de terror e sobrenatural, fico com medo! Hahahaha!
    Mas me interessei por vários aí, o da Lygia (ela é uma gênia dos contos!) e o dos cães me interessaram especialmente! Super vou atrás! 😀
    (Sabe quando você tem a sensação de que uma ideia é muito boa, apesar de simples? Estou com essa sensação a respeito do conto dos cachorros, dá até vontade que eu tivesse tido essa ideia para tentar escrever alguma coisa hahahahhaa!)
    Beijos!

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    • Nati, recomendo demais ambos os textos. O da Ligia é mto bom, e o do Moreira Campos é excelente. Aliás, ele é um grande escritor que creio que não seja mto conhecido por td o Brasil, pq era professor de literatura da Federal daqui do Ceará ( morreu em 94). Mesmo assim, é um dos meus contistas favoritos, acho que vc vai curtir mto…bjusss

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