O Vermelho e o negro

o vermelho e o negro

Ontem, exatamente às 22:30 horas, eu fechei o meu volume de “O vermelho e o negro” e soltei um suspiro. A sensação de ler uma obra tão incrível foi de saudade, misturada com perplexidade, porque foi bem marcante para mim.

Este livro, cujo subtítulo é “Crônica do século XIX”, é bem melhor absorvido quando você tem um embasamento histórico do período retratado nele. A França, país em que a trama se ambienta, em pouco tempo passou por profundas e irreversíveis mudanças: a Revolução em 1789 e o período napoleônico. Stendhal, o próprio autor, cresceu durante esta época, e, no romance, buscou mostrar como o país, já em 1830, tendo passado por uma restauração da monarquia após a queda de Napoleão, era bem diferente do que muitos poderiam supor.   julien

O título do romance, segundo muitos estudiosos, é uma espécie de alusão ao vermelho das armas e ao negro da batina, ou seja, aos dois caminhos buscados por Julien Sorel para subir socialmente.

Julien é um rapaz pobre, filho de um carpinteiro de uma cidadezinha no interior francês. Mas, não se engane: ele é astuto, inteligente, orgulhoso e vai agarrar muitas oportunidades para seguir o futuro glorioso ao qual se acha reservado. Apaixonado pela figura de Napoleão, seu ídolo, ele trama consigo mesmo planos ambiciosos e inconstantes o tempo todo. Mesmo Julien sendo um anti-herói, eu simplesmente me apeguei de uma forma como não acontecia comigo em relação a um personagem há muito tempo. Por ele ser muito jovem (começa a história aos 17, 18 anos), as trapalhadas involuntárias dele, a falta de traquejo social, os arroubos de paixão, as repentinas melancolias, os planos furados, enfim, tudo o aproxima de qualquer jovem comum, de qualquer época, que acaba “metendo os pés pelas mãos” quando as coisas saem de seu controle.

Bem, vamos ao desenrolar dos fatos: Julien é protegido de um velho padre da Varrières (cidade fictícia, aliás). Com ele, o rapaz aprende tudo sobre a Bíblia e latim com perfeição. O primeiro grande golpe de sorte da sua vida surge quando se torna preceptor (uma espécie de professor particular em tempo integral) dos filhos do casal de Rênal. Ele é o prefeito da cidade e sua esposa é uma mulher ingênua, que nunca tinha se apaixonado de verdade… isso até conhecer o filho de carpinteiro jovem e bonito, Julien. A paixão entre eles é incontrolável e ardente; entre a hesitação dela e a vontade de provar-se a todo instante, quase que o caso entre os dois é descoberto. Isso domina toda a primeira parte do livro, que termina quando ele decide ir para o seminário em uma cidade vizinha e um pouco maior que a que morava, Besançon.

gravuras do livro o vermelho e o negroLá chegando, acontece um dos momentos mais hilários do livro. O que me chamou a atenção é que a linguagem de Stendahl é contida, segura, não se perde em floreios desnecessários, mas há passagens em que ele, não querendo escrever algo literalmente engraçado, acaba fazendo muita graça, principalmente quando Julien demonstra sua falta de tato. Não à toa, o autor francês influenciou ninguém menos que Machado de Assis, por isso creio que a leitura de “O vermelho e o negro” foi tão envolvente, já que eu sou #TeamMachado de carteirinha, e encontrei muitos pontos em comum entre eles.

Enfim, Julien desmaia de pavor do padre que o recebe no seminário, Pirard. Severo e feio, o padre provoca e testa o rapaz até às últimas consequências, mas ambos acabam gostando um do outro. Tanto que o padre, envolto em intrigas de inimigos, vai para Paris e leva o seminarista junto, para ser secretário de um marquês, o sr. De La Mole.

Na Paris sedutora, o protagonista se vê alvo da hipocrisia, e vive enfadado até se envolver com Mathilde, a filha caçula do patrão. A relação dos dois, a meu ver, é mais sobre “estar apaixonado pela ideia de se estar apaixonado” que qualquer outra coisa. Ambos são orgulhosos, ambiciosos, têm a personalidade forte e se entregam a um namoro inconsequente mais pela vontade de experimentarem algo real que por um amor verdadeiro. De tudo isso, a srta. De La Mole fica grávida. Julien consegue várias vantagens nisso, e, quando já está no exército com uma alta patente e dinheiro assegurado para viver confortavelmente ao lado de Mathilde, fica sabendo que o pai dele recebeu uma carta da sra. De Rênal contando todo o caso que tivera com o rapaz.

Transtornado, ele volta à Varrières e atira na mulher de quem tinha sido amante bem no meio da missa. Preso, ele cai em si e percebe que a única solução viável para seu fim é a guilhotina. A sra. De Rênal não morre e o perdoa, revelando que a carta não fora escrita por ela. Particularmente, eu não gosto de contar o final dos livros que resenho, mas posso garantir: “O vermelho e o negro” é denso sem ser “difícil de ser lido”, irônico, inteligente, uma fusão de literatura e história que poucas vezes saiu tão perfeita.

Seu verdadeiro nome era Henri-Marie Beyle, mas ficou  conhecido como Stendhal. Conhecido nos salões parisienses, suas obras são conhecidas pela linguagem objetiva e pela análise psicológica dos personagens.
Seu verdadeiro nome era Henri-Marie Beyle, mas ficou conhecido como Stendhal. Conhecido nos salões parisienses, suas obras são conhecidas pela linguagem objetiva e pela análise psicológica dos personagens.

Que desgraça! Talvez me falte caráter. Teria sido um mau soldado de Napoleão.

Pessoal, eu gostaria de agradecer ao número de seguidores que o LA tem ganhado ao longo dos dias. Isso aqui não é só um simples passatempo, há muito amor, esforço e dedicação. Não sei se vcs sabem, mas eu passei por uma cirurgia bem séria no tornozelo direito e agora que estou voltando. Prometo que vou organizar meu ritmo de postagens, e podem ter certeza de que eu estou muito contente com o retorno e empenhada em fazer algo cada vez melhor! 😉

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4 comentários sobre “O Vermelho e o negro

  1. Ainda não li este… Depois de ler sua resenha, fiquei com vontade.
    Parabéns pelo blog! Conheci por causa de sua visita no meu e da comunidade de Blogs Literários.
    É um belo trabalho divulgar a literatura e incentivar a leitura.
    Abraços

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  2. Eu sempre simpatizei com o nome desse livro, mas confesso que até então não fazia ideia do que se tratava. Sempre flertei com a edição da Cosac Naify quando estava em promoção, mas acabei preterindo esse e comprando outros. Agora, fiquei bem inclinada a comprar! :*

    Curtido por 1 pessoa

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