Dom Casmurro

capitu olhos de cigana1

Falar sobre um dos livros favoritos não é tarefa fácil, porque envolve lembranças afetivas misturadas às próprias lembranças que você tem do livro. Dom Casmurro entrou para a minha lista de favoritos por ser, para mim, um dos melhores já li, em todos os sentidos.

Dom Casmurro faz parte do que na literatura brasileira se convencionou chamar de “tríade machadiana”, ou seja, os três livros tidos como essenciais do Machado de Assis. A tríade é composta pelo também maravilhoso e incrível Memórias Póstumas de Brás Cubas (livro que deu o pontapé inicial do Realismo no Brasil) e  também por Quincas Borba (sim, eu li todos várias vezes e tenho os três rsrsr).

Machado de Assis é considerado como o maior escritor da nossa literatura, muito por causa destes três livros citados, além de contos inesquecíveis. A sua forma concisa, irônica, arguta e até pessimista de contar histórias e de criar personagens que até hoje povoam nosso imaginário, além dos diálogos que mantém com o leitor, mostram que seus livros nunca envelhecem.

Quer prova maior de que isso seja verdade? Com certeza qualquer pessoa que já tenha lido um pouco e que tenha se educado no Brasil, pelo menos já ouviu falar de Capitu e do rolo que atravessou dois séculos: e aí, Capitu traiu ou não Bentinho?

Tudo parte da premissa de que Bento Santiago, o verdadeiro nome do “dom Casmurro”, já entrando na velhice, decide, como ele mesmo diz, “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Ou seja: no presente, já sozinho, ele decide contar a sua vida e sua paixão por Capitu, que foi perpassada por suas desconfianças.

Conhecemos então o jovem Bentinho: filho único que quase não nasceu, desde pequeno carrega sobre os ombros a responsabilidade de cumprir a promessa da mãe, D. Glória, de se tornar padre. Ele demonstra inclinação para a vida religiosa até ter seus sentimentos despertados pela vizinha da sua idade, Capitu. Ela é o oposto dele: enquanto Bentinho é tímido, tem certa falta de jeito, ela é determinada, perspicaz, é charmosa e sabe usar isso a seu favor. É justamente a partir desse fascínio que Capitu impõe, que o Bentinho mais velho acha subsídios para alimentar suas atitudes (e paranoias).

Ele acaba indo para o seminário, enquanto não consegue uma forma de convencer a mãe de que não quer mais ser padre, edom casmurro1 lá conhece seu melhor amigo: Escobar. De uma certa forma, ele é a outra pessoa forte e determinada que fascina Bentinho. Depois de uma ideia bem bolada por Capitu e assegurada por um agregado da família, José Dias, Bentinho se vê livre do seminário e se casa com a garota.

Ezequiel e Sancha (melhor amiga de Capitu) também se casam, e tudo parece ir muito bem na vida de todos. Apenas os ciúmes da mulher parecem turvar o julgamento de Bentinho, que sempre está procurando indícios nas atitudes da esposa algo que justificasse o que quer que fosse. Quando eles têm um filho, Ezequiel, parece que a felicidade finalmente se completa… até o menino, quando mais grandinho, passar a ser muito bom em imitações das pessoas com as quais convivia e ir ganhando características de Escobar.

dom casmurro

Os ciúmes vão se tornando cada vez mais frequentes até o ponto em que Escobar morre afogado, em um dia de ressaca do mar. A fatalidade pega a todos de surpresa, e desde a forma como Capitu chora e olha para o morto até o jeito do filho despertam em Bentinho desconfianças desenfreadas (ele chega a dar veneno para Ezequiel tomar, mas se arrepende antes). Tanto ciúme destrói as vidas deles, e cada um para um lado. Capitu morre na Europa, anos depois, e Ezequiel, já rapaz, morre em Jerusalém.

Bentinho termina só, sem amigos, sem família, tentando de alguma forma remendar ou justificar o que aconteceu e seu ponto de vista. Como a história é toda contada pela visão dele, nunca poderemos dizer com certeza se Capitu realmente foi infiel, e é isso que eu mais acho incrível neste livro: a capacidade de esse mistério persistir e de Capitu ser, simplesmente, a personagem feminina mais instigante da nossa literatura.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.

( Dom Casmurro, pág. 64 – Ed. ÁTICA, SÉRIE BOM LIVRO)

Machado_de_Assis
Machado de Assis, escritor carioca nascido no Morro do Livramento, era mulato, gago e epilético, o que não o impediu de tornar-se um dos maiores escritores da Língua Portuguesa. Escreveu romances, contos, crônicas, peças de teatro, poesia, críticas literárias e traduções. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
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12 comentários sobre “Dom Casmurro

  1. Oiii Karla!!!
    Taí um livro que preciso ler novamente. Gosto muito de “Dom Casmurro” e “Memórias póstumas”; “Quincas Borba” nunca li!
    Sou da opinião da maioria aqui: Bentinho é um narrador extremamente comprometido com a história, acredito que a traição seja coisa da cabeça dele, mas nunca saberemos. Parece que já houve um “julgamento” de Capitu, e ela foi inocentada por falta de provas. 🙂
    Beijos!

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  2. Também acho fascinante o fato de ninguém até hoje ter certeza do que aconteceu, mas pra mim o livro dá vários indícios de que Bentinho é louco,ciumento maníaco.

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